Quarta-feira, 3 de Maio de 2006
«Nell»
 


Foi com a morte da velhota, a mãe de Nell, que as pessoas da vila, e em especial o médico, tomaram conhecimento da existência desta rapariga, que cresceu e viveu sempre isolada, sem qualquer contacto com outra pessoa que não a sua mãe. Desta forma, a Nell não foi socializada a partir da infância, como acontece com as crianças que vivem em sociedade, uma vez que foi levada a adoptar um modo de vida afastada da mesma e dos seus benefícios e inconvenientes, sem aquilo que todos aceitamos como fundamental – água canalizada, luz eléctrica, etc. -, sem os agentes de socialização que a levassem a adoptar os comportamentos padronizados reconhecidos e aceites pela sociedade. A revelação do modo de vida de Nell e sua mãe provocaram assim a curiosidade das pessoas, levando-as a quererem estudá-la como se se tratasse de uma simples cobaia de laboratório, ou socializá-la, mesmo que à força.

Uma vez que a criança ao nascer é um ser não cultural, pois a cultura não depende da herança biológica, a Nell era, aquando da morte da mãe, um ser praticamente culturalmente em branco. Pouco tinha apreendido da cultura ocidental – somente aquilo que a sua mãe (único agente de socialização) lhe tinha transmitido. O facto de o comportamento de Nell não ser instintivo, mas antes o resultado daquilo que a mãe lhe tinha ensinado – como o costume de ficar parada nas pedras em cima do rio a fazer movimentos «pouco normais» -, vem comprovar que o comportamento individual não é instintivo, mas sim o produto da socialização a que somos sujeitos e através da qual aprendemos os comportamentos padronizados associados aos papéis sociais que poderemos eventualmente desempenhar, e que fazem com que os nossos comportamentos sejam sempre, ainda que de forma inconsciente, comportamentos sociais.

Sendo a linguagem um dos constituintes da cultura, e um dos principais meios da sua transmissão, o facto da rapariga ter aprendido a linguagem distorcida da mãe, e de ter comportamentos que não eram considerados como próprios pelas outras pessoas, fazia com que ela fosse vista pelas mesmas como uma selvagem, uma verdadeira «estranha», pois não a identificam com os valores, normas e comportamentos do grupo em que estes estavam inseridos. No entanto, havia também aqueles que, como o médico, a tentaram entender e ajudá-la, mesmo que essa ajuda não implicasse a sua socialização à luz da cultura do seu grupo. A linguagem constituia também um obstáculo à compreensão do seu modo de vida pelos outros, o que releva a importância da mesma como factor de união e identificação cultural, de mecanismo de aprendizagem da cultura e de ponto de contacto entre as diversas culturas resultantes dos diferentes processos de socialização.

Por fim, embora à luz de uma socialização dita “normal” Nell seja uma selvagem, ela sofreu e continuará a sofrer um processo de socialização particular, na medida em que a sua mãe lhe transmitiu a cultura do seu grupo, ainda que não na totalidade, ensinando-lhe os seus valores, as normas decorrentes dos mesmos e os comportamentos aceites por si. A relação entre esta rapariga, o médico e a investigadora, na parte final do filme, pode assim ser abordada sob dois pontos de vista: em primeiro lugar, como exemplo de um processo de relação associativo, mais propriamente de cooperação, havendo, no entanto, a assimilação por ambas as partes de alguns aspectos culturais particulares; em segundo, como um exemplo de como deve ser o contacto entre culturas diferentes, resultantes de processos de socialização divergentes - partilha de experiências e conhecimentos pacífica, sem que esta dê lugar a uma assimilação de uma das culturas por parte de outra.


utilidade: Comentário ao filme «Nell»
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Sábado, 22 de Abril de 2006
Mudança Social



Noção de Mudança Social:


  • O sistema cultural não é um sistema fechado, antes vai crescendo e transformando-se com o contributo intelectual e artístico dos homens e mulheres de cada tempo e lugar. Sendo um fenómeno participado, que concretiza a forma de expressão e de realização de um grupo, cada geração irá dar-lhe o seu contributo ao encontrar novas formas e idealizar outros valores, ao inventar outras formas de relacionamento e ao criar novas tecnologias.  

A cultura transmitida a cada geração nunca é a cultura que a geração presente herdou mas a que já produziu.

  • Mudança Social: Toda a transformação observável no tempo, que afecta, de modo não provisório ou efémero, a estrutura ou o funcionamento da organização social de uma dada colectividade e modifica o curso da sua história.

             É a «transformação dos valores, ideais e formas de relacionamento resultantes, nomeadamente, de processos de modernização que questionam o antigo e do relacionamento mais forte entre os povos dos diferentes espaços nacionais, em virtude dos processos progressivos de interdependência a nível mundial».


Características da mudança:

  • É um fenómeno colectivo – afecta e implica um conjunto substancial de indivíduos que verão, assim, alterados o seu modo e condições de vida.

  • Corresponde a uma mudança estrutural e não a uma adaptação funcional das estruturas existentes – torna-se possível observar alterações profundas na forma de organização social passíveis de comparação com as formas anteriores.

  • É identificável no tempo, o que nos permite detectar e descrever as alterações estruturais a partir de um ponto de referência.


A mudança social surge assim como a diferença observável entre dois estados da realidade social.

  • Não é efemero – qualquer evento passageiro, independentemente da sua força de pressão e de desorganização social, não conduz à mudança social, pois os seus efeitos desaparecem progressivamente com a adaptação funcional do sistema cultural existente.

Etapas do processo de mudança:

  • Descristalização do sistema de ideias vigente;

  • Reestruturação de um novo sistema noutras bases;

  • Recristalização do novo sistema de ideias.

  • A evolução social resulta do processo de mudança.




Factores e Agentes de Mudança

  • Não é possível encontrar uma causa ou agente único que se possa considerar exclusivamente responsável ou determinante pelos acontecimentos sociais.


No domínio do social, existe sempre uma multiplicidade de causas que, interagindo, produzem situações complexas, implicando, por sua vez, repercussões em diferentes domínios sociais.

É nesta convergência de factores que se deverá procurar não a causa, mas o conjunto das causas que permitiram o desencadear do processo de mudança.



  • Factores Geográficos:

  • Em resultado de cataclismos, secas, inundações, pragas, etc, tem-se assistido a grandes êxodos da população rural dos países do Terceiro Mundo. Esta não se encontrando preparada para o exercício de actividades profissionais mais exigentes, acaba por constituir uma mão-de-obra desqualificada e mal paga, sendo obrigada a viver em péssimas condições higiénico-sanitárias e sociais, o que tem provocado alterações nas estruturas sociais das grandes cidades.

  • Este fenómeno é igualmente observável nos países em vias de desenvolvimento onde a agricultura é uma actividade em declínio afastando as populações para os centros urbanos em ascensão.



  • Factores Demográficos:

  • Variações nas taxas de crescimento populacional ou grândes êxodos populacionais podem originar situações de mudança social. (ex: emigração inglesa para a américa)

  • Antigamente, os emigrantes provocavam grandes alterações no modo de vida das populações autóctones. Hoje em dia, os emigrantes, por contacto com as culturas dos países para onde emigraram, trazem as sementes da mudança para os países de origem.

«Com locais de destino geograficamente muito mais próximos, as relações entre residentes e emigrados mudaram totalmente. Os contactos entre residentes e emigrados passaram a ser regulares: as visitas aos parentes emigrados ou as viagens destes constantes às terras de origem, para férias, eram comuns e são ainda hoje constantes.»


  • Factores Políticos e Sociais:

  • Factores como a luta de classes ou o conflito político, a acção das elites sociais ou o aparecimento de movimentos sociais portadores de valores e modelos culturais diferentes constituem exemplos de forças capazes de despoletar situações de mudança.

  • As mudanças decorrentes do 25 de Abril de 1974 são bem representativas da acção decisiva de uma causa de natureza política.


  • Factores Culturais:

    • A evolução das ideias: subcultura e contracultura

  • Na vida social, os indivíduos relacionam-se dinamicamente. Quer se enquadrem na ordem social vigente, quer a contestem, os indivíduos, ao relacionarem-se entre si, refazem a cada dia o tecido social.


Nesta teia de relações que entre eles se estabelece podem residir os embriões da mudança.

  • Ao colocar em contacto comunidades de indivíduos portadores de culturas diferentes, poderão ocorrer alterações no comportamento de uns e de outros que se concretizam, naturalmente, em futuros processos de mudança cultural e social.

  • Subcultura – conjunto de relações e traços culturais que, simultaneamente, afasta e aproxima certos grupos da sociedade global, não pondo em causa a cultura dominante.


Quando deparamos com uma subcultura, somos levados a identificar um grupo que, apesar de produzir a sua cultura, não se afasta, de forma significativa, da cultura dominante, antes dela acolhe e assimila inúmeros traços, ao mesmo tempo que contribui para a evolução da cultura dominante que assimila, por sua vez, alguns dos traços das subculturas.

Desta forma, as subculturas podem constituir-se como factores de mudança cultural e social.


  • Contracultura – indivíduos e grupos que, não só se afastam dos modelos de comportamento socialmente aceites, como os rejeitam e contestam radicalmente, ao mesmo tempo que apresentam uma alternativa cultural à que é dominante.


A contracultura não representará portanto a negação pura e simples da cultura tradicional, antes pressupõe a existência de uma alternativa cultural.

O fenómeno da contracultura assim considerado exige que os indivíduos conheçam e interpretem a cultura dominante, para poderem colocar-se «contra» ela e construírem uma outra, assente em valores culturais bem distintos.

«É necessário ser-se culto e possuir os meios intelectuais fornecidos pela ideologia oficial, graças à ciência e à estética, para que uma herança se possa recusar».


Será no seio da classe ou dos grupos dominantes que se produzirão os mais importantes fenómenos contraculturais. Logicamente, a contracultura exige uma ideologia que justifica a estrutura e a acção do grupo, pelo que não há contracultura sem contra-ideologia.


Naturalmente que todo o movimento contracultural ao constituir alternativas aos modelos «oficiais», tende a ser anulado, por processos vários pela cultura dominante.

Para evitar ser recuperada pela sociedade «contra» a qual se edificou e de se tornar, ela própria, um novo pilar conservador dessa sociedade, a contracultura tem de se organizar em contra-instituições fortes e fechadas à investida da cultura dominante.



    • A Religião

  • A religião, como elemento integrante da cultura dos povos, é também um factor condicionante da mudança.


    • O contacto entre culturas

  • O contacto entre realidades culturais diferentes poderá provocar práticas sociais diferentes nomeadamente através do fenómeno da assimilação.



  • Factores Tecnológicos

- As descobertas científicas, quando postas em prática, isto é, quando transformadas em novas tecnologias, tornam-se factores de mudança.


  • Factores Psicossociológicos

  • Estão relacionados com a receptividade que diferentes populações manifestam em relação ao «novo».

  • O grau de instrução, a cultura geral e a informação são factores que contribuem para uma maior abertura à mudança, enquanto que a ignorância favorece o conservadorismo.

  • As sociedades individualistas (exemplo: sociedade americana) mostram-se mais dispostas à evolução e progresso do que as sociedades mais integradas, onde o indivíduo se subordina ao grupo.



  • As necessidades sentidas

  • Enquanto as pessoas não tiverem consciência de que se encontram num estado de carência, desejando alterar a sua situação, pouco ou nada farão para a mudar.


Não será suficiente a percepção do estado de carência; é preciso que os indivíduos consigam resolver o problema existente. Esta última parte relaciona-se proximamente com a base cultural da população e a sua alfabetização.



  • A mundialização


  • O factor mundialização é frequentemente salientado como elemento facilitador do processo de mudança, pela aproximação que suscita entre indivíduos, nações ou Estados.

  • A mundialização é manifesta nomeadamente ao nível:

      • da interdependência económica e da criação dos grandes espaços supranacionais, como a UE

      • da expansão das tecnologias de informação;

      • da globalização das comunicações;

      • da globalização dos padrões de comportamento;

      • da internacionalização dos conflitos mundiais;

      • da visão ecológica global.



Agentes de Mudança


  • A influência de que os indivíduos estão revestidos e que lhes é reconhecida pela generalidade da população, quer essa influência provenha de situações institucionais ou carismáticas, pode ser decisiva na aceitação de novas situações por parte das populações em geral.


                       Elites: pessoas ou grupos que, graças ao poder que detém ou à influência que exercem, contribuem para a acção histórica da colectividade seja pelas decisões tomadas, seja pelas ideias, sentimentos ou emoções que experimentam ou simbolizam.


  • Grupos com capacidade de influenciar a vida social através, nomeadamente, da opinião pública, pela importância social ou status que ocupam na hierarquia social.

  • As elites, ao constituírem um elemento importante de mudança, assumem um papel dinâmico nas alterações sociais ao nível:

      • da exemplaridade

      • da definição de novas situações culturais

      • da tomada de decisões.


Movimentos Sociais  - organizações de alguma forma estruturadas com vista à defesa e promoção de certos objectivos e agindo, por vezes, como grupos de pressão junto dos órgãos de poder.


  • Pela massa humana que mobilizam e pela força reivindicativa de que dispõem, constituem-se como importantes elementos a ter em conta nas sociedades actuais, desempenhando um papel relevante no processo de mudança social e no dia-a-dia de uma sociedade.

  • Os movimentos sociais não surgem «do nada», antes resultam de condições sociais facilitadoras para as quais muito contribui o descontentamento dos cidadãos, relativamente à ordem social ou a alguns aspectos dessa ordem.

  • Pré-condições para o aparecimento de movimentos sociais e que favorecem a adesão aos mesmos:

    1. Descontentamento social decorrente:

      • da provação de uns grupos relativamente a outros

      • da percepção de injustiça dos grupos desfavorecidos

      • da incoerência dos status que a mesma pessoa ou grupo tem na sociedade.

    2. Existência de um bloqueio estrutural na sociedade que impede a eliminação das causas do descontentamento.

    3. Interacção dos descontentes no sentido de passarem à acção.

    4. Expectativa de que a acção concertada entre as partes tenha eficácia.

    5. Ideologia partilhada por todos os descontentes que não só justifica a sua acção como a sustenta.

  • Os movimentos sociais são altamente dinâmicos e, apesar da estruturação que apresentam, são de duração incerta.

  • Tipos de movimentos sociais:

      • Movimentos Migratórios (ex: judeus antes da constituição do estado de Israel)

      • Movimentos Expressivos – movimentos sociais de grupos que, não conseguindo alterar a realidade, alteram as suas reacções face a essa realidade (ex: seitas).

      • Movimentos Utópicos – pretendem criar uma sociedade ideal para os seus seguidores (ex: movimento hippie)

      • Movimentos Reformistas – pretendem introduzir ajustamentos aos modelos sociais vigentes, como os movimentos de defesa dos direitos das minorias (movimento gay).

      • Movimentos Revolucionários – são movimentos tendentes a mudanças profundas na sociedade (ex: P. Comunista e Berloque)

      • Movimentos de Resistência – são movimentos tendentes a travar a mudança operada na sociedade (ex: movimento anti-aborto)


A Extensão e o Ritmo da Mudança/Resistência e Aceitação

  • As alterações conhecidas por uma cultura têm sempre de enfrentar a resistência dessa mesma cultura, condicionando, assim, a profundidade, rapidez e extensão da mudança.

  • Mudanças evolutivas – mudanças visíveis a longo prazo que ocorrem naturalmente pois correspondem a certos domínios da acção social que foram evoluindo gradualmente no tempo, por adaptação progressiva a novas situações, originando novos valores e novos modelos de comportamento.

  • Mudanças Impostas – transformações bruscas e rápidas que acarretam a transformação do próprio sistema.

      • Decorre ao mesmo tempo que a evolução, ocorrendo rapidamente e sendo os seus efeitos visíveis a longo prazo.

      • Impõem-se ao sistema que é obrigado a modificar-se, aceitando-as, independentemente das resistências que a ela o sistema contrapõem.

      • Operam verdadeiras rupturas no tecido sociocultural e resultam da incapacidade de adaptação evolutiva do mesmo, em tempo útil, às pressões de mudança a que é submetido.

  • Por norma, as mudanças sociais evolutivas, lentas e progressivas, são aceites mais facilmente, por não introduzirem incertezas, angústias ou anomia; pelo contrário, as mudanças sociais impostas, por serem bruscas, causam uma forte resistência.

  • Contrariamente ao que parece ser norma, mudanças há que acontecem a um ritmo rápido e sem que encontrem fortes resistências. - Tudo depende do tipo de mudança e das consequências que ela pode acarretar.

  • Se a mudança vier a responder a algumas das carências sentidas pela colectividade, ela far-se-à rapidamente e sem grandes resistências. Pelo contrário, mudanças que questionam a própria ordem e estrutura social deparam com fortes obstáculos.

  • A aceitação da mudança dependerá do facto de pôr em perigo os direitos adquiridos. Os custos sociais são, pois, factor condicionante da aceitação da mudança.




Consequências da Mudança


  1. Consequências Culturais: a aculturação


Aculturação – processo de mutação cultural, concretizado pela aquisição de elementos materiais e espirituais de uma cultura por outra, resultante do contacto entre os povos.

    • Resulta de processos de intercâmbio comercial, científico, técnico e artístico.

    • O processo de aculturação nem sempre se faz de forma pacífica, pois que do contacto entre os povos nem sempre resultou o estabelecimento de relações amigáveis.

    • Aculturação por assimilação – verifica-se entre os povos que estão em contacto permanente, sem que qualquer cultura exerça sobre a outra um processo de dominação.

      • Cada cultura apreende livremente os traços materiais e espirituais da outra.

      • Factores determinantes: actividade comercial e desenvolvimento dos meios de comunicação e informação.

    • Aculturação por destruição – a aculturação não é um processo livremente aceite pelas duas culturas, antes funciona de forma quase unilateral: a cultura do povo conquistador impõe-se à cultura do povo dominado, que se vê, assim, despojado dos elementos culturais que a sua vida social forjou.

      • Resulta do encontro de culturas em consequência de uma conquista militar ou de dominação política.

      • Mesmo neste processo de aculturação acontece mistura cultural, isto é, a própria cultura dominante irá assimilar, ainda que mais lentamente, elementos da cultura do povo dominado.


  1. Consequências económico-sociais

    • Novas tecnologias são sempre factores de desestabilização. Geralmente associadas à criação de mão-de-obra excedentária, as novas tecnologias são, usualmente, mal recebidas, sobretudo pela população trabalhadora. - A adaptação à nova situação, até se atingir o novo ponto de equilíbrio, é sempre dolorosa.

    • A desadaptação aos modelos vigentes pode, inclusive, levar os indivíduos ao suicídio, por não encontrarem neles modelos de referência.

    • Benefícios sociais da modernização:

      • aumentos de produtividade e de produção

      • possibilidade de libertar o trabalhador de tarefas rotineiras e enfadonhas que qualquer máquina pode fazer

      • aumento dos tempos livres

      • realização profissional e pessoal do indivíduo

      • aparecimento de novos papéis e estatutos sociais

      • mobilidade social

      • aumentos de rendimentos, resultantes do acréscimo da produção

      • participação dos indivíduos em actividades mais ligadas aos seus interesses

    • O sucesso da mudança está largamente dependente das estratégias sociais utilizadas para a sua aceitação.


  1. Outras Consequências Sociais

As mudanças ocorridas nas sociedades actuais, dado o acesso democratizado aos mass media, tendem a produzir comportamentos padronizados veiculados pelos modelos transmitidos a que todos têm acesso.

 Há, todavia, quem argumente que os mass media, pela diversidade que apresentam, permitem, pelo contrário, a desmassificação cultural.


Os mass media contribuem para a diversificação de modelos culturais ou para a massificação das sociedades?



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As Instituições Sociais e a Reprodução Social
 

Noção de Reprodução Social

Reprodução Social – acção da sociedade no sentido da manutenção da ordem social e da perpetuação das condições em que a vida social se desenrola (Gallo).


Conjunto de acções e mecanismos sociais orientados no sentido de assegurar a ordem social estabelecida (status quo ou establishment).



Necessidade de Reprodução das Condições Sociais de Produção


 Uma formação social ou sociedade é solicitada, em cada momento, a produzir os bens necessários à sua sobrevivência imediata.

Porém, a sua continuidade exige também que sejam garantidas as possibilidades futuras da produção. Cada formação social deve assegurar-se de que as gerações vindouras poderão continuar a produzir, garantindo, assim, a sua reprodução.

 Ao assegurar a reprodução material, a sociedade deverá garantir também a sua reprodução cultural e ideológica.

Se os valores, ideias e modelos que sustentam o funcionamento de uma sociedade e que traduzem sempre uma certa hierarquia social não forem reproduzidos, esses alicerces sociais transforma-se-ão e, com eles, todas as características da formação social.

A reprodução cultural e ideológica assegura a aceitação do sistema de estratificação social vigente.


A reprodução dos meios de produção

 A actividade produtiva deverá produzir não só os bens essenciais à nossa subsistência imediata, como prover à substituição dos meios de trabalho deteriorados, à reprodução das matérias-primas agrícolas e industriais, à utilização racional dos recursos naturais renováveis e não renováveis...

A reprodução da Força de trabalho

 A reprodução dos meios de produção não chega para que haja a garantia de continuidade do processo produtivo.


A reprodução da força de trabalho é condição indispensável à reprodução social.

 A reprodução da força de trabalho exige que cada um de nós tenha acesso aos resultados da produção.

Nas formações sociais em que os indivíduos se situam em estratos e classes sociais que se posicionam de forma diferenciada face à propriedade dos meios de produção, a reprodução da força de trabalho tem sido assegurada pelo salário.

O salário deverá assegurar a reprodução da força de trabalho, garantindo a sobrevivência dos trabalhadores e ainda dos seus descendentes, pois são eles que irão garantir a continuidade do processo produtivo.


A reprodução das relações sociais de produção

 Relações sociais de produção – relações que se estabelecem entre os detentores dos meios de produção e os detentores da força de trabalho.

 A reprodução social reproduz, também, o sistema de estratificação social que caracteriza a formação social.

Classes e estratos dominantes vêem manter-se a sua situação de dominação.

 A reprodução de certo sistema de hierarquias exige que se mantenham os diferentes tipos de relações que se estabelecem entre os indivíduos, ao longo do processo produtivo.

As relações de dependência e de subordinação deverão ser reproduzidas, como factor imprescindível à reprodução do modo de produção dominante.

 A reprodução social exige, pois, não só a reprodução das forças produtivas, isto é, a força de trabalho e os meios de produção, mas também a reprodução das relações sociais de produção.

 Em todo este processo de reprodução social, a ideologia tem um papel fundamental.



A Ideologia

Noção de Ideologia


                    Ideologias: Sistemas de ideias, de crenças e de opiniões que influenciam os grupos e explicam/legitimam os seus comportamentos, dado que pretendem ser a representação e interpretação da realidade social feitas pelo próprio grupo.


  •  Ao aceitarem como verdadeiros os valores impostos pelas ideologias, os indivíduos de cada grupo lutarão no sentido de verem aceite o seu sistema de valores.
  •  Cada grupo social produzirá a sua ideologia.


  • A função da classe dominante é a de levar todos os indivíduos a aceitar, como universal, o seu conjunto de valores.

    • Naturalmente, numa sociedade de classes, a produção de ideias dominantes será a da classe dominante. Esta não se contenta com o acto de dominar, antes procura impor, também, a crença da legitimidade da sua dominação.

    • Através de vários meios, nomeadamente, os meios de comunicação (os grandes impérios no domínio dos mass media são pertença do Estado ou de indivíduos da classe dominante), a ideologia dominante penetra na classe dominada de tal forma que impede o desenvolvimento das ideias da classe dominada. A classe dominante ensina, assim, a classe dominada a aceitar o seu lugar na sociedade.

  • No seio da classe dominada surgirá um grupo de indivíduos que, mais consciente da sua situação de classe, produzirá um sistema de representações que deverá orientar a actuação da classe – Contra-ideologia.

 Dado que as ideologias não são senão os prolongamentos teóricos das classes que se antagonizam, a oposição classe dominante/classe dominada deverá conduzir ao nascimento e desenvolvimento do antagonismo ideologia dominante/ideologia dominada.

 A ideologia surgirá, pois, como a manifestação ao nível das ideias, dos interresses de cada grupo ou classe historicamente determinada, não se constituindo, assim, num conceito abstracto.

Cada classe terá a sua ideologia que desejará alargar à colectividade global.

 

Ideologia e Acção

 A ideologia dominante só o é porque a classe da qual emerge é a força social dominante na formação social.

O minar dos alicerces da classe dominante passará também pelo incremento da luta ideológica. Tal luta acabará por conduzir a uma inversão nas posições de dominação em sintonia com a queda e ascensão de cada classe na formação social.

 Todo o grupo produz a sua ideologia que além de interpretar a realidade social, propõe acção no sentido de manter ou alterar essa realidade.

Ideologia pressupõe acção ao exortar e orientar o grupo a agir no sentido da consecução dos objectivos que se propõe atingir e que considera seus, de direito.

 A Ideologia legitima a Acção.


Ideologia e Cultura

 A ideologia torna-se o campo privilegiado de criação de novos valores ou recriação dos velhos com um novo sentido.

A ideologia é um dos campos principais em que se criam valores novos, que, muitas vezes difusos ou latentes, encontram finalmente formulação num esquema ideológico que os explicita

 Se a cultura e ideologia relevam, ambas, da vida social, a ideologia adianta-se à cultura exactamente na medida em que não propõe, apenas, a aceitação dos comportamentos sociais, antes pode produzir acção não conformista.

Ao condicionar e motivar comportamentos, a ideologia enquadra-se no conceito sociológico da cultura.

 Parece evidente que a ideologia, que se revela pela produção teórica, não se confundindo com a cultura é, no entanto, um dos seus elementos fundamentais, apesar de nela não se encontrar totalmente contida.



As Instituições Sociais Como Agentes de Reprodução Social

 

Noção de Instituição Social


               Instituição Social  - Conjunto de procedimentos, portanto, maneiras de pensar, sentir e agir, que definem formas de alcançar determinados objectivos e que são largamente aceites pela generalidade da população ou da sociedade.

A palavra instituição designa toda a forma de controlo e determinação das condutas individuais no seio do grupo organizado que possui uma estrutura, finalidades colectivas e uma fonte de poder.

Identifica-se com um conjunto de maneiras de pensar e agir que se apresenta aos indivíduos independentemente da sua vontade e que corresponde a uma forma de se alcançarem determinados objectivos.

Embora as instituições se nos apresentem como algo que vem do passado e que se nos impõe ou constrange como «um governo dos mortos sobre os vivos», as instituições não são imutáveis.

 Porque são um produto social, acompanharão de perto a evolução social de que nós somos protagonistas e mais não são do que sistemas organizados e estáveis que incorporam comportamentos sancionados por certos padrões e têm o objectivo de satisfazer certas necessidades.

São relativamente permanentes, tornando os padrões comportamentais que as caracterizam em verdadeiros traços culturais.

 

Elementos das instituições sociais e controlo social

Todas as instituições sociais contêm elementos que lhes dão existência e as caracterizam.

Os elementos que permitem a identificação da instituição, não só para os próprios membros, como também para o resto da sociedade são:

  • As necessidades de base e objectivos – é por existirem necessidades na base das instituições que estas se constituíram.

  • As maneiras de solucionar tais necessidades – cada instituição social tem de dar resposta às suas necessidades sociais de base. Identificando as maneiras de solucionar as necessidades de uma instituição, saberemos de que instituição se trata.

  • Os papéis sociais – cada instituição social tem papéis bem definidos, sem o exercício dos quais não seria possível atingir os objectivos para que a instituição foi criada.

  • As relações sociais – são, obviamente, a essência da própria instituição. É do resultado das interacções criadas pelo desempenho dos papéis sociais dos diferentes intervenientes, que as instituições conseguem funcionar e assim alcançar os objectivos para que foram criadas.

  • Símbolos culturais – têm por função lembrar aos membros das instituições os seus papéis.

  • Ideologias – são também elementos a ter em conta na reprodução social. Daqui que, por vezes, surjam contradições entre instituições com ideologias eventualmente diferentes.

Para a compreensão das instituições devemos ter em conta não apenas os elementos que as constituem, mas também o papel que desempenham na reprodução social, pelo facto de constrangerem os seus membros a conformarem os seus comportamentos a modelos e valores previamente existentes e que enformam os da sociedade.

 

Qualquer instituição representa um sistema organizado de relações sociais, fiel a determinados valores de comportamento e disposta a satisfazer as necessidades básicas da sociedade.

 

As Instituições Sociais como Agentes de Reprodução Social

  • As instituições sociais pela repressão física, pela coacção psicológica ou por processos de aprendizagem contribuem para o processo de reprodução social através da manutenção da e aceitação da ordem social.
  • Nem sempre os processos de repressão física têm conseguido impedir, de forma eficaz, o desvio às normas sociais. Assim, os estratos e as classes sociais dominantes têm lançado mão de outras estruturas organizadas que funcionam preferencialmente pela via ideológica.
  • Através da ideologia, a cada um de nós é ensinado o papel e lugar respectivos no sistema de estratificação social, no sentido de assegurar a reprodução social.
  • Só quando cada indivíduo se convencer de que o lugar que lhe foi destinado na formação social é o único e legítimo lugar que deve ocupar, é que a reprodução social se encontra assegurada
  • A reprodução social exige, portanto, a submissão às normas e regras da ordem estabelecida, isto é, à ideologia dominante na formação social.
  • Existem exemplos em que os agentes de socialização assumem atitudes e posições contra as expectativas dominantes. Estamos, então, perante verdadeiras contra-instituições que se opõem ao poder e à ordem dominantes, combatendo os valores, os modelos e a cultura em que se processa a reprodução social.

Os meios de comunicação social e a reprodução social

  • A preservação das suas posições sociais, com os inerentes benefícios e privilégios, é um dos objectivos por que mais se empenham e lutam os indivíduos.
  • Pelo prestígio social que detém ou pelo poder económico que possui, a classe dominante encontra-se sempre representada e defendida nas instâncias políticas e lança mão dos mais variados processos para consolidar a sua influência.
  • Os aparelhos repressivos, a par com a Igreja, a família, a escola ou os mass media ajudam aquela consolidação.
  • O poder legislativo e executivo nas mãos da classe privilegiada permite, eficazmente, a manutenção e a criação de condições que perpetuem o seu confortável status social.


Um dos problemas fundamentais a resolver será o da manutenção da coesão e da ordem social existentes. Para tal contribui o controlo social.

 Entre os factores capazes de influenciar o comportamento dos indivíduos, isto é, entre os controladores sociais encontramos, evidentemente, a opinião pública quando é manipulada pelos órgãos de comunicação de massa.



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O Papel da Socialização na Reprodução Social
 


Socialização e Estratificação Social


 A socialização, como processo de transmissão da cultura do grupo a que o indivíduo se encontra ligado, inclui, naturalmente, a aprendizagem do modelo de organização social vigente.

O processo de socialização contribui para que os indivíduos se adequem e acomodem às normas do grupo, o que passa pelo respeito das regras, dos papéis e estatutos socialmente reconhecidos bem como pelo sistema de estratificação social vigente.

Desempenha, assim, um importante papel no processo de aceitação de uma sociedade estratificada.

Estratificação Social e Hierarquia

 A complexificação social, exigindo novas funções sociais, tem sido acompanhada da atribuição de funções diferentes aos indivíduos, com a atribuição correspondente de deveres e privilégios.


Hierarquização de funções e de estatutos, de acordo com critérios e valores estabelecidos e aceites na sociedade e que os indivíduos aprendem durante o respectivo processo de socialização.

 Qualquer hierarquia supõe uma referência a valores em relação aos quais podemos situar os diversos estatutos numa escala de apreciação.

            Estratificação social: Classificação diferencial dos indivíduos que compõem um sistema social dado, e a sua qualificação de superiores ou inferiores uns em relação aos outros, segundo valores importantes para a sociedade.

  • Traduz-se nas oportunidades que o indivíduo pode ter, segundo a sua situação social, de receber em maior ou menor quantidade as coisas que, na sociedade, têm valor ou de participar mais ou menos nos valores essenciais.

  • Uma vez que cada conjunto de indivíduos, que gozam de igual tipo de oportunidades de acesso aos valores sociais, constitui um estrato social, pode afirmar-se que as sociedades são estratificadas.

  • A estratificação social, exigindo então um sistema de hierarquias, concretiza uma forma desigual de distribuição dos direitos e privilégios, dos deveres e responsabilidades, do poder e influência... entre os membros de uma sociedade.

 Hierarquizar estatutos ou posições sociais implica que os indivíduos recebam de forma desigual as coisas que têm valor social e que participem diferentemente nos valores essenciais.


Critérios de Estratificação Social

 Uma vez que a estratificação social pressupõe determinada hierarquia, esta exige a fixação de critérios que a expliquem e lhe dêem razão de ser.

 A multiplicidade e a diferente natureza dos estratos com que nos defrontamos em qualquer sociedade e o facto de entre eles se estabelecerem inúmeras relações, alerta-nos para a diversidade dos critérios de estratificação utilizados e para a falta de limites rígidos e precisos.

 A estratificação surge como um fenómeno universal, mas dificilmente enquadrável numa tipologia rígida, dado que são inúmeros os critérios possíveis e a variação da sua importância no tempo e no espaço.

 Tipos de estratificação:

  • económica - baseada na situação económica e financeira das famílias (riqueza, rendimento)

  • política – baseada na importância política de cada indivíduo ou grupo.

  • socioprofissional – resulta da diferente importância atribuída a cada profissão (prestígio, grau de educação). É determinante nas sociedades industrializadas e urbanas.

  • outros – raça, religião, orientação sexual...

          Todos eles representam uma repartição desigual das vantagens que podem ser adquiridas na sociedade.

 A estratificação é então um problema complexo, dado que cada sociedade tem os seus critérios de estratificação próprios, mas que podem variar de grupo para grupo ou não se encontrar perfeitamente definidos.

 O problema da estratificação torna-se ainda mais complexo visto que em cada momento os mesmos indivíduos ou grupos podem pertencer a estratos diferentes, consoante os critérios adoptados, assumindo assim, posições hierárquicas diversas, muitas vezes resultantes das opiniões subjectivas do próprio indivíduo ou grupo.

 Cada sistema de estratificação condiciona a mobilidade social.



Classe Social


Noção de classe social, segundo Marx

Os indivíduos concorrem entre si, de forma organizada ou difusa, no sentido de melhorarem as suas posições na sociedade. Esta luta apresenta um duplo carácter: para uns serve para conquistar posições; para outros é necessária para manter e consolidar as posições já adquiridas.

 De acordo com Marx e Engels «a história de toda a sociedade até hoje é a história da luta de classes».

              Classe Social divisão efectiva da sociedade, e não meramente metodológica, que exige um mínimo de consciência que permita conduzir a luta na sociedade global com o objectivo de fazer prevalecer os interesses do grupo e de liderar ou participar no poder.


  • Uma classe só existe para si em oposição a outras.

  • É combatendo, lutando contra as restantes classes, que a classe em si se transforma em agente histórico.

  • É fundamental que a classe antagónica tenha uma consciência científica e objectiva e não apenas ideológica da sua posição em relação aos outros.

  • Existem apenas duas classes sociais que se definem em função de um critério real: a propriedade dos meios de produção. Este critério é inerente ao acto de produzir, indispensável à sobrevivência dos indivíduos, e, portanto, é um critério objectivo.

  • Nos últimos anos tem-se vindo a sentir a necessidade de alargar o conceito de classe social, pois o desenvolvimento económico, a democratização da educação e do processo político têm vindo a contribuir para atenuar as desigualdades sociais e para que os indivíduos possam exprimir livremente as suas opiniões através da luta política e do acto eleitoral.

A luta de classes é um fenómeno que, de acordo com alguns ideólogos, tem vindo a ser substituído por formas diversas de concertação social, ao mesmo tempo que se caminharia para uma sociedade de classes médias.


 Associar classe social a estrato é abusivo, já que o conceito de classe social só tem valor como parte da teoria de Marx e Engels, entre outros.



A Socialização como Processo de Reprodução Social

A Socialização como Controlo Social

 É através da interiorização gradual das normas e valores do grupo (socialização) que o indivíduo é aceite como membro, com iguais direitos e deveres.

 Um eficaz processo de socialização é um factor indispensável à aceitação total das normas e valores do grupo, contribuindo para a sua reprodução.

 A socialização adquire também o estatuto de controlo social, na medida em que ela impede ou dificulta que os indivíduos actuem de forma diferente da esperada, por tal actuação ser «anormal».


Mesmo que inconscientemente, os indivíduos autoregulam os seus comportamentos, agindo de acordo com os quadros sociais em que foram socializados, a fim de não serem considerados como marginais e de lhes não serem atribuídos todos os estigmas sociais que a marginalidade confere.

 Porque impede o indivíduo de se afastar da norma, isto é, de ter comportamentos desviantes, a socialização contribui para a reprodução social, assumindo a natureza de uma verdadeira forma de controlo social.


O Conflito entre os Agentes de Socialização

 O contributo do processo de socialização para a reprodução social não é uniforme nem linear, variando de sociedade para sociedade ou, na mesma sociedade, ao longo do tempo.

 O controlo social exercido pela socialização é mais eficaz numa sociedade fechada tradicional do que numa sociedade aberta.

Uma vez que a abertura e mobilidade são características típicas das sociedades modernas, é natural que ocorram nelas, com muita frequência, processos de socialização antecipada e de requalificação e reposicionamento social.

 Entre os grupos cujo estatuto social diminui e os cujo estatuto aumenta, estabelecem-se relações de algum modo conflituais, que se repercutem nos indivíduos em geral, sujeitos permanentes de processos de socialização diversificados.

 Em cada momento e com mais acuidade nas sociedades abertas, a acção dos agentes de socialização pode ser contraditória e conflitual, contribuindo para acelerar ou retardar o processo de mudança.


Grau de Aceitação do Sistema de Estratificação Social

 Qualquer que seja o sistema de estratificação social, dificilmente é aceite de forma plena, dado que é imposto e representa uma forma de distribuição desigual de oportunidades e de privilégios.

 Os inúmeros mecanismos de controlo social e o processo de socialização contribuem, de forma determinante, para a aceitação do sistema, sendo natural que a aceitação do sistema de estratificação assuma diversos graus.

 Quanto mais consentido for o sistema de estratificação, isto é, quanto maior for o seu grau de aceitação pela colectividade, maior será a sua estabilidade.

  • Se a estratificação é bem aceite (sociedades mais tradicionais), a competição entre os estratos quase não existe, pelo que as tensões entre eles, pouco vigorosas, não implicam grande alteração da ordem estabelecida.

              O sistema de estratificação social vai-se alterando, gradualmente, em sintonia com as mutações ocorridas na própria sociedade.

  • O reconhecimento dos diferentes tipos de vantagens atribuídas aos estratos pode levar à constituição, no seu seio, de grupos mais conscientes da sua situação de desvantagem que, reclamando-se o direito de exprimir os interesses do estrato, vão afectar todo o sistema.

A rivalidade entre os estratos torna-se real, provocando sempre desiquilíbrios no tecido social, podendo assumir, por vezes, formas mais violentas. É o tempo de mudança, das alterações de costumes e de valores.

A aceitação do sistema de estratificação social depende, portanto, do processo de socialização.

Esta relação não é linear nem inalterável: o indivíduo, mesmo sendo um produto da cultura do grupo em que está inserido, poderá sempre reagir contra os seus aspectos mais críticos assumindo uma atitude desviante.

O indivíduo, não aceitando as desigualdades sociais decorrentes do sistema de estratificação social vigente poderá, por via mais violenta (luta política ou armada) ou por via mais pacífica (possibilidades de mobilidade social) lutar contra a situação.


 

Mobilidade Social e Socialização por Antecipação

A mobilidade social, ao acarretar a mudança de estrato, acarreta, também, novos papéis e estatutos sociais.

 A mobilidade social não acontece de forma igual nas diversas sociedades, antes varia de acordo com os valores sociais que as caracterizam e com os próprios critérios de estratificação. É um processo tanto mais intenso quanto mais aberta for a sociedade.

  • Nas sociedades arcaicas a mobilidade social é difícil ou virtualmente impossível. Dificilmente o indivíduo se libertará dos estratos que, à partida, lhe foram atribuídos.

  •  Nas sociedades modernas, a mobilidade social é um fenómeno característico, uma vez que os novos critérios de estratificação não se encontram, ainda, rigidamente implantados. A mobilidade social está sempre presente nas atitudes e realização de um indivíduo ou grupo.

- A mobilidade social é viável pois os estratos são abertos, existindo entre eles canais de acesso, nomeadamente a instrução e, sendo permitida a competição. A ascensão social depende mais do mérito e talento individuais do que da ascendência social...

- Na base desta mobilidade está, certamente, o desenvolvimento económico e tecnológico.

- A mobilidade também pode acontecer no sentido descendente. Não sendo uma situação muito vulgar, pode acontecer que o indivíduo não consiga manter a posição em que nasceu, por não aproveitar as oportunidades oferecidas à partida pelos pais.

- Para que o indivíduo seja realmente aceite pelos membros do estrato a que ele pretende ascender, é preciso que o indivíduo em mobilidade adquira os elementos culturais do novo estrato, de forma a agir de acordo com os padrões de comportamento respectivos – Socialização por antecipação.

- A desadequação comportamental do indivíduo aos padrões de comportamento do estrato a que ascendeu leva a que seja olhado sempre como um estranho, um recém-chegado que, de facto, nunca chega a ser considerado como um igual.

-  Afinal, num processo de mobilidade social, os indivíduos são forçados a socializarem-se de acordo com os valores e modelos do grupo de referência a que querem vir a pertencer e que lhes serve, portanto, como referencial de comportamentos.



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publicado por Ana Silva Martins às 18:19
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Referências Bibliográficas - Sociologia
 


  • Cabrito, Belmiro Gil, Oliveira, Maria da Luz, Pais, Maria João, Sociologia – 12ºano (3ªedição), Lisboa, «Texto Editora», 2003.



publicado por Ana Silva Martins às 00:20
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