Sábado, 22 de Abril de 2006
Mensagem (Fernando Pessoa)
 


Contextualização da Obra


Poema publicado em 1 de dezembro de 1934, integrando textos escritos entre 1913 e 1934. Mensagem é o único livro de Pessoa publicado em vida pelo autor.

Pessoa era um «nacionalista mítico, um sebastianista racional».

Na opinião do poeta, havia-se perdido a identidade pessoal os feitos históricos perderam-se com o tempo e só já restava a memória. Então, nada melhor que recuperar um mito para fazer ressurgir das cinzas uma nação («O mito é o nada que é tudo», em Ulisses).

Ele acreditava no destino messiânico de Portugal e acreditava também que o saudosismo que preenchia os corações dos portugueses poderia ser o ponto de partida, a motivação para a tentativa de recuperação de uma imagem que morrera com o passado.

Através do sonho, poder-se-ia construir um império perfeito e espiritual que teria como finalidade a construção da paz universal.



Carácter épico-lírico


Carácter Lírico – pois expressa os sentimentos de um sujeito poético;

Carácter Épico – pois exalta-se um povo e os seus heróis;

Carácter épico-lírico – não só pela forma fragmentária como pela atitude introspectiva, de conteplação no espelho da alma e pelo tom menor adequado. Parte dum núcleo histórico e assenta num certo simbolismo e misticismo.

Carácter Elegíaco – pois em todos os poemas perpassa um tom nostálgico e saudosista.


Estrutura


Poema de estrutura tripartida. Esta tripartição é simbólica e tem como base o facto de as profecias se realizarem três vezes, ainda que de modo diferente e em tempos diferentes. Corresponde à evolução do Império Português que, tal como o ciclo da vida, passa pelo nascimento, realização e morte. Todavia, esta morte não poderá ser entendida como um fim definitivo, visto que a morte pressupõe uma ressureição, que culmina com o aparecimento de um novo império, desta vez não terreno, mas sim espiritual e cultural, a fim de atingir a paz universal.


  1. Brasão” (Origem – conquista de um espaço)

    • Localização de Portugal na Europa e em relação ao mundo.

    • Referência a mitos e a figuras históricas.

    • Portugal erigido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.

 - Valorização dos predestinados que construírama o país (construtores do império) - faz desfilar os heróis lendários ou históricos, desde Ulisses a D. Sebastião, ora invocados pelo poeta, ora definindo-se a si próprios.


Atitude Exemplar


* «O dos Castelos» - valor simbólico de Portugal na civilização ocidental;

* «Ulisses» - definição do mito de modo paradoxal, como impulso necessário à construção;

* «D.Dinis» - Um dos predestinados – lançou a semente para os Descobrimentos (pinhais);

* «D.Sebastião, Rei de Portugal» - loucura como busca de grandeza.



  1. «Mar Português» - Realização do Império/Vida

    • Personalidades e acontecimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido;

    • Grandeza do sonho convertido em acção;

    • Concepção messiânica da História.


DEUS HOMEM OBRA

 Português – O ESCOLHIDO


O SONHO E A SUA CONCRETIZAÇÃO


* «O Infante» - para que a obra nasca é preciso que Deus queira e o Homem sonhe.

O Império material desfez-se; falta concretizar este novo sonho: um império espiritual.


 * «Horizonte» - Espaço ilimitado e longínquo que se deseja alcançar

- Longe – metáfora do desconhecido

- Necessidade de vencer o medo


 * «O Mostrengo» - As dificuldades, os medos, a coragem...

- A vontade é mais forte que o medo


 * «Mar Português» - Os perigos, a dor, o sofrimento...

- Atingir o objectivo significa sofrimento

- Para atingir o Céu (a glória) é necessário vencer os abismos (espírito de sacrifício).


  1. «O Encoberto» - Morte/Presente de mágoa/Impulso para o sonho.

    • Necessidade de Regeneração de um império moribundo;

    • Fé de que a morte contenha a semente da Ressureição (Portugal nasceu do nada e há de voltar a renascer – luta (espírito de sacrifício de que são exemplo os heróis do passado)).

O futuro faz-se da construção no passado.


    • Esperança e sonho português.

    • Profecias relativas ao sebastianismo regenerador e voltado para o futuro e ao mito do Quinto Império.

    • Ânsia por um SALVADOR (o eleito)

QUINTO IMPÉRIO



 * «Quinto Império» - Sem o sonho, a vida é nada

- O Quinto Império alcançar-se-à através dos valores espirituais

*«’Screvo meu livro» - Tristeza perante a situação do mundo

- A crença num Salvador atenua a mágoa

- Necessidade de concretização do sonho (no futuro)

 *«Nevoeiro» - Situação actual: decedência, miséria

- Depois do nevoeiro virá a luz que permitirá encontrar o caminho certo.

 

 *«É a Hora!» - de traçar novos rumos, de tomar a iniciativa e de cumprir a missão que nos foi confiada.


A Mensagem termina com a expressão latina Valete Fratres (“Felicidades, Irmãos”), um grito de felicidade e um apelo para que todos lutem por um novo Portugal.



A unidade do poema é construída a partir de valores simbólicos que integram o passado transfigurado em mito e da invenção de um futuro. Os heróis míticos simbolizam sucessivamente: a formação e a consolidação da nacionalidade, as descobertas e a expansão imperial, a esperança de um novo império, o Quinto Império.

A estrutura da mensagem, sendo a dum mito, numa teoria ciclíca, a das Idades, transfigura e repete a história duma pátria como o mito dum nascimento, vida e morte dum mundo; morte que será seguida dum renascimento.



Narração


Narra a História de Portugal de uma forma simbólica e emblemática, desvalorizando a narração e a descrição, revelando um carácter mais abstracto e interpretativo.

Apresenta uma visão da História de Portugal e do papel que lhe estará reservado no futuro, que se afasta da visão tradicional.

Glosando a ideia da predestinação nacional, ele impregna de idealismo platónico a sua visão do acontecer histórico: não é tanto o império terreno que ele canta, mas sim a ideia condutora, o que não existe no mundo sensível, a quimera, o mito, a fome do impossível, a “loucura”.

O que Fernando Pessoa realiza, através da mensagem, é um apelo para que se entenda que os feitos do passado não se extinguiram – na sua essência, existe uma força propulsora cujo dinamismo é a própria natureza humana, que se projecta sempre que há um ideal («Deus quer, o homem sonha, a obra nasce»).


Mitos e Simbolismo


Cada uma das partes da Mensagem começa com uma expressão latina, adequada à parte simbólica a que pertence. A obra é iniciada com a expressão latina Benedictus Dominus Deus noster que dedit nobis signum («Bendito o Senhor Nosso Deus que nos deu o sinal») que nos remete para o carácter simbólico e messiânico da Mensagem.

Toda a Mensagem, na sua particular formulação simbólica e mitológica, implicará e transformará nela uma concepção trans-histórica. Como toda a realidade dita por esta forma de conhecimento, ela conterá em si uma realidade para além das coordenadas do tempo. Uma perene actualidade que vive na história, mas noutro plano.

O mito transmite-nos as tradições culturais de um povo. Pessoa sempre acreditou que, através do mito, poderia orientar os portugueses no sentido que se pretendia diferente do tomado até então. E, porque Portugal já tinha o seu próprio mito (o mito sebastianista), não se iriam reciclar quaisquer outros.

O apelo da mensagem vai no sentido da concretização de uma vocação universalista dos Portugueses. Um império de cultura, onde o poder criativo do mito forjasse o futuro e onde houvesse uma submissão voluntária ao sonho. É toda ela um acto de paixão pela pátria, é a aspiração anónima de um povo que quer dar a si e ao mundo novos mundos, que quebrem o descontentamento do presente, que aceitem a morte do passado para que o poder fecundador do mito faça surgir o futuro: um novo sebastianismo, que transmita um desejo absoluto de contínua renovação.


Conceitos pessoanos relevantes para a compreensão da obra:

  • Herói – ser que estabelece a ligação entre uma vontade transcendente e superior ao Homem e à acção. É aquele que interpreta a vontade divina, actuando para dar cumprimento a uma vontade que lhe é superior, transformando-se em mito.

  • Sebastianismo – o sebastianismo pessoano define-se em oposição ao sebastianismo tradicional, uma vez que Pessoa defende que o grande mito nacional se volte para o futuro, ajude a regenerar a pátria. Defende o ressurgimento de um nacionalismo profético que abandone o conceito tradicional de pátria, marcado por limitações geopolíticas e que avance para uma noção linguística e cultural («Minha pátria é a língua portuguesa»).

  • Quinto Império – está ligado ao conceito de sebastianismo e ao de pátria. Este império não é limitado por fronteiras geográficas ou políticas, é um império de ordem cultural e linguística. Portugal, a sua cultura e a sua língua deverão ser o pólo dinamizador de um vasto império cultural. É um conceito profundamente moderno e é quase que uma profecia do aparecimento da comunidade lusófona.


Simbologia dos Números:

1 – Simboliza o Ser por excelência, a unidade entre pólos opostos, remetendo, assim, para a totalidade e para a comunhão com o transcendente.

2 – Simboliza a divisão e a dualidade, seja ela a expressão de contrários ou de complementaridade. Resume o grande paradoxo da existência: a vida e a morte.

3 – Remete para a união entre Deus, o Universo e o Homem, representando por isso a totalidade. Tese, antítese, síntese. Fases da existência: nascimento, vida e morte. Perfeição formal: introdução, desenvolvimento, conclusão.

5Ordem, Equilíbrio, Harmonia e Perfeição.

7 – Período temporal unificante e está por isso associado à ideia de completude de um ciclo. Número mágico que remete para o poder e para o acto de criação.

12 – Remete para a unidade temporal do ano. Está ainda associado aos 12 apóstolos que reflectem por sua vez uma forma diferente de estar no Universo, forma essa pautada pela fidelidade a Cristo, pela fraternidade e pela paz.

Outros símbolos:

Quinas – Representam as 5 chagas de Cristo – imagem do sofrimento e da redenção dos pecados humanos.

Brasão – Simboliza a formação do reino e o passado inalterável.

Noite – Simboliza a morte e a inércia e implica a hipótese de nascimento.

Mar – Simboliza o masculino. O seu dinamismo associa-se à ideia de conquista e transformação. Mar como reflexo do céu – espelho da vontade divina.



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publicado por Ana Silva Martins às 20:29
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