Sábado, 22 de Abril de 2006
Miguel Torga
 


A Dimensão Poética Torguiana: perfil literário e estilístico


Pseudónimo literário do médico Adolfo Correia Rocha, nascido em 1907 em Trás-os-Montes e falecido em Coimbra em 1995.

Torga é a designação regional (transmontana) da «urze» - denuncia a vinculação do artista à raiz telúrica original. Miguel aproxima-o de nomes como Cervantes e Unamuno, apontando desse modo para uma abertura do transmontano a horizontes ibéricos e mesmo universais.

Fez parte do grupo Presença e dirigiu com Branquinho da Fonseca a revista Sinal e, mais tarde, a Manifesto. Contudo, o seu temperamento independente e quase agressivo depressa o afastou da associação a quaisquer grupos literários. Institui-se, portanto, no nosso panorama literário como um caso isolado.

Na sua obra vastíssima contam-se os mais variados géneros: Poesia, Peças de teatro, Narrativa, Impressões de viagem, Diário.

Torga é um escritor que se situa no concreto e está ligado ao húmus natal. A sua obra é ele e a natureza, ele e Portugal.

É um lírico que fala de si, se exibe e reabilita Narciso como o homem que se busca numa imagem inteira.

A presença dos outros é condição de plenitude, mas também de incompreensão, de isolamento forçado, motivo de ressentimento e de amargura.

É o impulso afectivo que faz dele o poeta da comunidade.

Torga é simultaneamente o poeta da angústia e o poeta da esperança. Angústia provocada pela ausÊncia de Deus ou do divino nos homens, pela morte. A esperança é a resposta da vida que em nós continua a latejar. Por isso, o humanismo de Torga consiste numa lição de juventude. O poeta denuncia, ilumina, constrói.

À falta de conflito espiritual preciso, Torga encontrará nas múltipla ocasiões de embate ou combate com a realidade histórica, humana ou natural, o motor constante da sua dinâmica poética («Dies Irae»).




Temáticas


1. O Desespero Humanista

Grandes agonias humanas da década de 30.

Agonia, desespero, face a um mundo suspenso dos grandes poderes e da impensável capacidade de destruição. Amargura resultante da observação dos defeitos e vícios do povo português e de descer ao mais fundo do seu ser e de se encontrar consigo mesmo.

É frequente verificar-se que o desespero dá lugar à esperança, principalmente porque Torga, como poeta, é chamado a gritar a sua solidariedade humanista com todos os que são abandonados, competindo-lhe a ele, lançar-lhes na alma a chama da esperança, uma espécie de luz que se acende na imensa noite.

Mito de Orfeu: Torga compara a descida de Orfeu aos Infernos para ir buscar Eurídice, com a descida que o próprio faz ao mais fundo de si, ao inferno do seu ser, onde enfrentou o medo, a vergonha e o assombro. O mito de Orfeu é muito querido a Torga por retratar a rebeldia de quem não aceita os limites que lhe são impostos («Orfeu Rebelde» exemplifica o humanismo de um revolucionário).

«Dies Irae» e «Orfeu Rebelde».


2. A Problemática Religiosa (a revolta da imanência humana contra a divindade transcendente)

O drama de um homem que se sabe mortal, que não aceita a morte, que tenta dialogar com um Deus que não o ouve e com o qual está em conflito permanente.


Torga não aceita o facto de Deus ter criado o homem, de lhe ter dado algo de divino, a vida, para depois o precipitar num percurso inevitável de degradação física que o leva à morte. Daí a sua revolta constante contra um Deus, que considera cruel e impiedoso, um Deus de quem o sujeito poético se afasta irremediavelmente, nunca, no entanto, o negando.

 A ausência de um Deus mais humano e imanente é o que realmente perturba o poeta – prefere questionar a verdade de Deus para afirmar o homem e a necessidade de este procurar a verdade na terra.


Deus não é um palavra morta na sua poesia e esta o testemunha de mil maneiras, quanto mais não fosse pelo seu uso constante.

Negação da transcendência de Deus e a obsessão da sua presença – por sentir constantemente as provações da vida, própria e alheia, é que torga entra em conflito interior, causando-lhe o desespero religioso que o leva a um constante monólogo com Deus, palavra que assume como uma obsessão.

O afastamento progressivo Eu/Deus acaba por ser o resultado da necessidade de escolher entre uma transcendência prepotente, ameaçadora, constrangedora e uma imanência (o homem) quente e criadora.

Para além da racionalidade religiosa, a liberdade é para Torga um impulso que não receia confrontos ou limitações.

O homem tem de recusar todas as normas que invadem ou limitam a sua liberdade (mesmo Deus).

Indecisão face ao Absoluto, ao sagrado (por um lado teme-o, por outro afronta-o).

Por um lado nega Deus para melhor assumir a realidade humana; por outro, Deus não é uma palavra morta. É quase uma obsessão.

A revolta e o protesto.

A angústia e o desespero.

Percepção da condição humana (estrutura intersectada de claro-escuro) – porque o homem não é uma natureza, mas uma condição, um drama e uma acção, são a revolta e a recusa que o identificam. A afirmação do humano é a negação do divino.

«Cântico da Humanidade» (“Hinos aos deuses, não./ Os homens é que merecem/ Que se lhes cante a virtude.”)


3. A Dimensão Telúrica (o mito de Anteu)

A terra, a vida e o homem são os três agentes distintos, originais e originários da cosmogénese torguiana. O elemento primordial é a terra, o ventre telúrico de cujo útero, na origem dos tempos, emanaram os primeiros homens, os primeiros arbustos e os primeiros caniços (ou seja, a própria vida).

 A terra, mãe de todas as coisas e a mais perfeita delas todas, é uma constante da sua obra.


É na terra que a vida acontece e é aí que se deve cumprir. A terra surge, assim, como um ventre materno e a tarefa do homem é orientar-se para esse sentido criador, genesíaco (daí o vocabulário empregue).

Segundo Torga, o homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o sagrado se exprima.

Amante de Portugal - verdadeira paixão pelas origens. O telurismo de Torga exprime-se no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de ser português.

Ama o povo «concreto» e não o povo abstracto e idealizado.

Perdido num século de perplexidades e angústias, é na terra que busca a sua identidade.

 «Devo à paisagem as pocas alegrias que tive no mundo. (...) Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi ou eles nunca me entenderam (...) vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espetáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno.» (Diário II)


“Abandonado” por Deus, revoltado contra uma divindade que não o compreende, o sujeito poético de Torga volta-se para a terra, para o húmus natal. É aí que ele vai buscar a força interior para enfrentar as adversidades da vida.

A sobrevalorização da terra chega mesmo a aproximar-se da heresia.

Tudo provém e desemboca na terra (telurismo). O próprio poeta vem da terra e a ela regressa.

O espaço geográfico – Trás-os-Montes – é tratado por Torga como a busca da sua identidade, aquele que o ajuda a encontrar o seu próprio eu e a conhecer-se melhor, onde retempera as suas energias, tal como Anteu as retemperava em Geia, que lhe concedia novas forças. A terra é o refresco da alma, o refrigério do seu desespero, a confidente-ouvinte, que o ouve e aconselha nos seus dramas interiores de um eu obstinado e rebelde.

Entra em comunhão com o pastor e o camponês.

Utiliza frequentemente palavras ou expressões alusivas à terra para expressar a busca e o encontro consigo próprio.

O seu apego à terra fá-lo evocar o mito de Anteu.


Anteu – figura da mitologia grega e romana, filho da deusa Terra, onde ia buscar forças para derrotar todos quantos se aproximassem da costa líbia. Foi derrotado por Hércules, que, tendo descoberto a origem da sua valentia, o ergueu do chão, durante uma luta, impedindo, deste modo, que este sugasse a energia que o alimentava.

«Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias.»

«S. Leonardo da Galafura» (a “divinização” da terra é mais evidente, até porque se opõe a uma “eternidade” supostamente divina e sem brilho); «Ibéria».


4. A dimensão ontológica do acto poético

«Eu hei-de ser poeta até morrer. Hoje, quando escrevo, sinto o mesmo tremor emocionado do primeiro dia. Para mim, o acto de criar é ontológico; a criação tem um carácter sagrado.»

O poeta é um criador e, como tal, tem o poder de criar uma outra realidade diferente do “negro desespero” do presente.

Alargamento do conceito de poeta (um simples artífice das palavras) para o de alguém que se revela pelo seu empenhamento na transformação da realidade, que o envolve.

«Canção do Semeador» (“O Poeta é uma criança/ Que devaneia”) e «Majestade» (“Passa um rei – é o Poeta.”).



Estilo/linguagem

Estilo eloquente, mas sóbrio.

Palavras de inspiração genesíaca, tais como fecundar, germinar, seiva, sémen e parir, e invocações báquicas: vinho, mosto, cacho. Existe outra zona de inspiração, traduzida por palavras como sonho, ilusão, aventura, Deus, mito, lua, estrela, astral.

Uso de palavras ligadas à terra.

Presença de imagens de cunho cristão, litúrgico e pagão

Recurso a símbolos helénicos e bíblicos.

Uso frequente de figuras de estilo como a imagem, a metáfora e a repetição.

Irregularidade métrica, estrófica e rimática.


Simbologia

MAÇÃ (MACIEIRA) – utilizada simbolicamente em muitos sentidos diferentes mas que se aproximam, como, por exemplo: o pomo da discórdia e o pomo de ouro que são frutos da imortalidade; a maçã comida por Adão e Eva... Fruto de ciência, de magia e de revelação, representa a manutenção da juventude, a renovação e frescura perpétua, a fecundidade, a vida e a pureza.

SOL – elemento fecundador, masculino. Fonte da luz, do calor e da vida. Os seus raios representam as influências celestes – ou espirituais – recebidas pela terra.

CARVALHO – Árvore sagrada, é investido dos privilégios da divindade suprema do céu, atraindo o raio e simbolizando a majestade. Indica solidez, força, longevidade e altura, tanto no sentido espiritual como material. Instrumento de comunicação entre a Terra e o Céu.

FONTE – o seu simbolismo é expresso pela nascente que jorra no meio de um jardim, ao pé da Árvore da Vida, no centro do Paraíso Terrestre. Esta é a fonte da vida ou da imortalidade, ou ainda, a fonte do ensinamento. Pelas suas águas sempre novas, a fonte simboliza o perpétuo rejuvenescimento. Símbolo de maternidade, nas culturas tradicionais é a origem da vida, do génio, do poder e da felicidade. Para os gauleses as fontes tinham a propriedade de curar as feridas e reanimar os guerreiros mortos.


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publicado por Ana Silva Martins às 20:40
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