Sábado, 22 de Abril de 2006
Sophia de Mello Breyner Andersen
 


A Palavra Poética em Sophia

 

Casada com Francisco Sousa Tavares, ambos encetam uma luta contra o salazarismo e apoiam Humberto Delgado em 1958.

Os seus poemas transfiguram uma realidade muito concreta, em que o amor da vida e da exigência moral encontra símbolos marinhos e aéreos, usados com uma força inspirada excepcional, para exprimir uma atenta e tensa vivência do sentido trágico da existência e do convívio humano com as coisas naturais.


A poesia de Sophia pretende ser impessoal, pois nela não encontramos registos pessoais, nem lamentações líricas de desespero ou de comoção. Como cidadã do mundo que é, pretende retirar da realidade toda a sua objectividade, por isso a sua obra é um exercício de simplicidade sobre as coisas concretas.


Numa atitude semelhante à de Alberto Caeiro, a poetisa abre os sentidos (sobretudo os olhos) às sensações que emanam da natureza e nomeia as coisas para lhes restituir a sua realidade concreta e precisa.

Contenção de tom, discreta fluidez, simplicidade muito pura da expressão.

É evidente na sua obra o afloramento de muitos valores e ideias eufóricos e disfóricos:

  • Concepção existencialista da vida (absurdo da «viagem humana», inquietação);

  • Valores da antiguidade clássica (harmonia, equilíbrio, poesia pura, justiça);

  • Função exemplar da literatura;

  • Noção do poeta como pastor do Absoluto;

  • Noção do Homem como o pastor do Ser;

  • Crença na verdade dos valores antigos;

  • O individualismo e o idealismo psicológico;

  • Originalidade e independência criadoras;

  • Problemática nitzschiana do instante;

  • Humanismo Cristão – deus faz parte do seu mundo; Deus é perfeição, beleza, bondade;

  • Reminiscências infantis;

  • Fidelidade a valores nórdicos;

  • Crença em valores sebastianistas e messiânicos;

  • A natureza – mar, conchas, búzios, polvos, ondas, espuma, areia/ vento, luar, árvores, pássaros, noite – simboliza perfeição e mistério, o reencontro individual com a solidão, o lugar de união com o que há de mais verdadeiro, livre e puro, é a fonte principal de inspiração;

  • A progressiva tomada de consciência dos problemas sócio-políticos levou-a a incluir conteúdos sociais e éticos na sua obra;

  • Quando fala de injustiça e de desigualdade social, empresta a esses conteúdos a mundividência humanista cristã proveniente da sua formação religiosa e das noções clássicas de harmonia e equilíbrio.

  • A cidade aparece associada à confusão que impede o caminho da procura da perfeição, da harmonia e do equilíbrio clássicos. É a este equilíbrio que se associam a justiça e a verdade;

  • Certas composições poéticas suas são interpretações de obras de arte ou homenagens a outros poetas e artistas, sendo de realçar o seu fascínio por Fernando Pessoa;

  • O tempo é também tratado, surgindo um «tempo dividido» entre o presente e o futuro, sendo o presente o responsável pela construção do futuro. Em oposição, ressalta um «tempo absoluto» que se reflecte na natureza, no mar, no infinito.

Poesia = Belo

  • A poesia é uma “perseguição” do real, ou seja, o real é o seu ponto de partida;

  • A poesia constrói, pelo rigor e verdade que transmite, uma moral – Segundo Sophia, o poema é sempre uma construção de rigor e de verdade, e todo aquele que é sensível à beleza de um poema não pode deixar de ser sensível à injustiça e à ordem falsa do mundo. Mesmo aqueles poemas que apenas falam da luz ou do ar são sempre um meio de denunciar a injustiça e o sofrimento do mundo.

  • A poesia deve ser um meio para atingir a liberdade e a dignidade do ser – recusa a ideia da «arte pela arte», sublinhando que meso o artista que escolhe o isolamento, pela sua produção artística “influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros”, porque “pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele irá contribuir para a formação de uma consciência comum”.



A Temática


1. Os Quatro Elementos Primordiais

A sua poesia mantém permanentemente uma relação especial com a natureza, nomeadamente com os quatro elementos primordiais. A água (mar, espuma, praia), o ar (vento, brisa, sopro), o fogo (sol e luz) e a terra (natureza, fauna e flora) constituem a “perfeição do universo”, daí que Sophia, como poeta, um medianeiro do Absoluto, deva procurar a compreensão da agitação cósmica, e apreender uma realidade pautada pela pureza, perfeição e harmonia.

Elemento poético: o mar, a noite, a floresta.

A natureza é uma das principais fontes de inspiração, conotada de significados diversos: tanto funciona como elemento poético (o mar, a noite, a floresta) como contém a verdade antiga das origens e do futuro; tanto se liga à ideia de beleza, pela sua perfeição e variedade de cores, como aparece associada ao mistério (sereias, nereides, ninfas, ilhas, pássaros estranhos e cores nunca vistas). Contém a verdade antiga das origens e do futuro.

Por outro lado, e quase paradoxalmente, a noite é “o espaço imenso que lhe consente visões em que pode satisfazer a sua sede de libertação pelo sonho, de partida para as viagens mais imprevistas, pelo imaginário e longínquo, da captação dos segredos adormecidos na memória.

1.1 – A Natureza Marítima

Símbolo de totalidade, infinito, vida, eterno movimento, aventura, transparência e abundância: MAR

Espuma, brilho, praia, areia, água, ilhas, ninfas, sereias, ondas, conchas, búzios (muitas vezes fazem parte de imagens da infância e da juventude – reconstituição nostálgica de um passado)

A natureza marítima está mais conotada com o mistério, ligada àas origens da vida e, simultaneamente, do movimento progressivo para o futuro.

Relacionada com o mar – a praia – que representa o início, a transição para o mar, para a aventura... Ligada ao mar aparece, também por vezes, a luz (o reflexo e a cor) como símbolo de transparência, de pureza e harmonia.

1.2 – A Natureza Terrestre

Os elementos terrestres aparecem com muita frequência relacionados com a riquíssima memória do passado: infância e adolescência – jardim e casa. O mundo passado reconstitui-se através da memória: tempo recuperado.

Jardim Perdido = beleza; pureza dos dias vividos; passado de sonho e fantasia.


2. A Cidade

Espaço em que a paisagem foi destruída para dar lugar ao betão e ao asfalto...;

Conotação negativa;

Representa a destruição da natureza, a substituição do natural pelo artificial (mas o homem parece não ter consciência disso);

Falso paraíso da artificialidade, da mentira, da hipocrisia (diferente da pureza da natureza).

«Há cidades acesas».


3. A Injustiça e as Desigualdades Sociais

O sentimento de justiça associa-se à noção clássica de equilíbrio, harmonia universal sem a qual nem o Homem nem o Poeta se podem realizar plenamente.

Denúncia corajosa da opressão, do silêncio, do obscurantismo, da alienação, da miséria, da hipocrisia, da perfídia e da degradação que se viviam em Portugal em plena ditadura. O poeta denuncia as injustiças, mesmo que de forma irónica, como salienta o poema “As pessoas sensíveis” («As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas/ porém são capazes/ de comer galinhas»).

Procura da Justiça e da Verdade em todos os planos da vida.

«Porque» - são visíveis as referências à solidão e à marginalidade daquele que “luta coerentemente pela justiça com as armas da justiça, dizendo a verdade e não utilizando a contraviolência”).



Características Estilísticas

Captação do real por meio de sensações que, por vezes confundindo-se, originam sinestesias. A poetisa transfigura tudo através da imaginação. As metáforas e as imagens constituem o fascínio do seu mundo artístico irreal, daí a plurissignificação e a ambiguidade tão próprias dos seus poemas.

A rima serve para criar beleza fónica, mas também para realçar certas palavras chave do poema.

A pontuação é pouco utilizada de forma a não tolher a imaginação e o sonho.

Discurso figurado com recurso a símbolos e alegorias.

Uso de certas palavras dotadas de grande simbolismo e magia: praia, jardim, justiça, mar, casa, luar, sol, água, vida, morte, areia, terra, estrelas, beijo.

Liberdade de ritmo e métrica.


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publicado por Ana Silva Martins às 20:44
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