Sábado, 22 de Abril de 2006
Felizmente Há Luar! (Luís de Sttau Monteiro) II
 

Personagens


    • Personagens do Poder: São personagens-tipo. Longe de evidenciarem a coesão do poder, eles são a prova de que existiam vários interesses em jogo na regência do reino (os da nobreza, os da Igreja e os dos oficiais ingleses) – A questão que temos para resolver (...) consiste em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais convém que tenha sido o chefe da conjura (pg.65) - . As classes dominantes temiam os movimentos liberais que punham em causa a rígida hierarquia tradicional do reino e constituíam uma ameaça aos privilégios a que estavam habituados.

D. Miguel Forjaz (poder político/nobreza):

  • Protótipo do pequeno tirano, inseguro e prepotente, de carácter calculista, cínico e maquiavélico, avesso ao progresso, insensível à injustiça e à miséria;

  • É a personificação da mediocridade consciente e rancorosa. (Sousa Falcão pg. 134);

  • Orgulhoso da sua origem nobre, despreza o povo, demonstrando, assim, um carácter antipopular.

  • Homem de gabinete, defensor do absolutismo, sente-se ameaçado pelas ideias de liberdade.

  • É o representante da falsa caridade cristã: é um cristão de Domingo.Todos os dias dá a um pobre pão que lhe baste para se preservar vivo até morrer de fome (pg. 135)

  • Utiliza uma linguagem adequada à sua posição de homem de Estado e no seu discurso resorre a argumentos convincentes que servem as suas conveniências;

  • Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e demagógica, construindo verdades falsas em que talvez acabe mesmo por acreditar;

  • Opõe-se ao progresso por razões meramente pessoais;

  • Primo de Gomes Freire, odeia-o e teme-o já que ele poderá pôr em causa o seu lugar no poder, uma vez que reconhece no General qualidades que ele próprio não possui. Pauta-se por sentimentos de falsidade e hipocrisia, que o levam a condenar, sem provas, o general, capaz de abalar o regime “podre” em que vivia.

  • Profere a frase Felizmente há luar...

  • Os argumentos do «ardor patriótico», da construção de «um portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que vivia lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor», são o eco fiel do discurso político dos anos 60.

Principal Sousa (poder religioso):

  • Hipócrita e com falta de valores éticos, paternalismo falso e beato;

  • Defende um Deus feito à imagem e semelhança dos homens;

  • Pretende manter o povo na ignorância para poder exercer a sua tirania, para mais facilmente o moldar, vivendo atormentado com o aumento da alfabetização.

  • Preocupam-no também as ideias revolucionáriasliberais francesas, uma vez que a sua divulgação poria em causa o poder eclesiástico.

  • Simboliza o concluio entre a Igreja, enquanto instituição, e o poder e a demissão da primeira em relação à denuncia das verdadeiras injustiças;

  • Através dele são demonstrados todos os vícios da Igreja e as contradições entre a palavra que se apregoa nos púlpitos e os actos que se praticam – dá esmola aos pobres e condena à forca os que pretendem acabar com a pobreza, (...) condena a mentira em nome de Cristo e mente em nome do Estado -.

  • A linguagem que utiliza coaduna-se com a sua condição de homem fanático e membro da Igreja (terminologia de sentido teológico). É uma linguagem estereotipada, igual a qualquer outro eclesiástico da altura.

  • É igualmente possível detectar nas suas palavras os fundamentos da política do orgulhosamente sós dos anos 60: Enquanto a Europa se desfaz, o nosso povo tem de continuar a ver, no céu, a cruz de Ourique.

Beresford (poder militar):

  • Cínico e controverso, é um mercenário inglês, hipócrita, egoísta e insensível;

  • Representa o domínio do exército inglês em Portugal.

  • Assume o processo de Gomes Freire não como um imperativo nacional ou militar, mas apenas motivado por interesses pessoais – a manutenção do seu posto e da sua tença anual.

  • Não perde a oportunidade de zombar do Principal Sousa e provocá-lo com o seu discurso sarcástico – Preferia certamente que me exprimisse em latim? (pg.59).

  • A sua posição face a toda a trama é nitidamente de distanciamento crítico e irónico, acabando por revelar a sua antipatia face ao catolicismo caduco e ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade portuguesa.

  • A linguagem utilizada é frequentemente sarcástica, especialmente quando fala com o Principal Sousa. As suas réplicas são curtas, incisivas, manifestando o desprezo que esta personagem sente pelos outros governadores.

  • Personagens do antipoder: formam um grupo destacado, revelando-se ao longo da acção fiéis aos seus valores e a si próprios, unidos pela amizade e fidelidade a Gomes Freire.

Gomes Freire de Andrade:

  • Segundo o próprio autor, ele «está sempre presente embora não apareça».

  • Esta personagem ganha existência somente na fala das outras personagens.

  • Assume uma importância fulcral no desenvolvimento da acção, pois influencia o comportamento de todas as outras personagens, tornando-se o centro das suas preocupações e ansiedades.

  • Homem culto, instruído, letrado (um estrangeirado), militar que lutou pela honestidade e justiça até às últimas consequências.

  • Grão-mestre da Maçonaria, símbolo da modernidade e do progresso, adepto das novas ideias liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso para o poder instituído.

  • Amado pelas personagens que aspiram à liberdade, à abolição do regime absolutista instituído.

  • Odiado e considerado persona non grata por aquelas que vêem a sua presença como uma ameaça aos privilégios até então obtidos.

Matilde de Melo:

  • Personagem forte, com grande densidade psicológica, carregada de simbologia;

  • Mulher corajosa, defensora da sinceridade, denuncia a falsidade e a hipócrisia do Estado e da Igreja. Luta por causas perdidas – justiça, lealdade, valentia.

  • Companheira de todas as horas de Gomes Freire, do ponto de vista afectivo, manifesta-se uma mulher apaixonada que vai tomando consciência da inevitabilidade do fim do seu companheiro, ainda que eivada de esperança, culminando num estado de delírio, alucinação, face à perda iminente do seu homem.

  • As suas falas, imbuídas de dor e revolta, constituem também uma denuncia da falsidade e da hipocrisia do Estado e da Igreja.

Sousa Falcão:

  • É o amigo fiel de todas as horas de Matilde e Gomes Freire.

  • Sofre em uníssono com Matilde a condenação do General que teve a coragem de “dar a cara” nas situações mais difíceis.

  • Nutre uma grande admiração pelo General e pelos princípios que ele defende. A sua morte leva-o a reflectir sobre si próprio, sentindo-se culpado por não ter o mesmo destino que este, não ter a coragem de o acompanhar até ao fim. Fosse eu digno da ideia que de mim mesmo tinha, e estava lá em Baixo, (...)ao lado de Gomes Freire(...) As ideias (...)[dele] são também as minhas, mas ele vai ser enforcado – e eu não. (pg. 139/137)

Frei Diogo: É inocente, sensível e compreensivo à dor. Constitui-se como o símbolo do antipoder dentro da Igreja – Se há santos, Gomes Freire é um deles.


  • Personagens do Povo:

Manuel e Rita:

  • Símbolos do povo oprimido e esmagado, têm consciência da injustiça em que vivem, sabem que são simples joguetes nas mãos dos poderosos, mas sentem-se impotentes para alterar a situação.

  • Vêem em Gomes Freire uma espécie de Messias e daí, talvez, a sua agressividade em relação a Matilde, após a prisão do General, quando esta lhes pede que se revoltem e que a ajudem a libertar o seu homem.

  • A prisão de Gomes Freire é uma espécie de traição à esperança que o povo nele depositava.

  • Acabam também por simbolizar a desesperança, a desilusão, a frustração de toda uma legião de miseráveis face à quase impossibilidade de mudança da situação opressiva em que vivem.

  • A sua linguagem apresenta descuidos gramaticais e aforismos.


  • Traidores: Representam os denunciantes que vendem informações ao Poder em troca de dinheiro. Homens sem escrúpulos, de personalidades mesquinhas, que não respeitam os seus próprios códigos morais.

Vicente:

  • Personagem modelada, que revela evolução – passa do povo para os traidores.

  • Elemento do Povo, trai os seus iguais, chegando mesmo a provocá-los, apenas lhe interessando a sua ascensão político-social.

  • Falso nas palavras, nas atitudes e nos gestos, que encena e estuda como se fosse um membro da nobreza, à qual desejava ter pertencido.

  • Revela-se o popular mais consciente da situação miserável em que vivem, sobretudo quando apresenta as razões pessoais que o levam a aliar-se ao regime vigente e a transformar-se em delator.

Morais Sarmento e Andrade Corvo:

  • O primeiro é capitão do exército e atormenta-se com o facto de o poderem rotular de traidor.

  • O segundo é oficial e preocupa-se somente com o dinheiro que vão receber, não se importando com o que dele poderão dizer.

  • São os delatores por excelência, aqueles a quem não repugna trair ou abdicar dos ideais, para servirem obscuros propósitos patrióticos.



Importância das Didascálias, Sonoplastia e Luminotécnica


Importância das Didascálias:

Em Felizmente Há Luar! As indicações cénicas assumem especial relevância quer pela abundância quer pelos pormenores que transmitem.

Há dois tipos de didascálias:

  • As que surgem em itálico e entre parêntesis dão as indicações acerca de:

* Caracterização das personagens;

* Tom com que as palavras são pronunciadas;

* Sentimentos que lhes estão por detrás e intencionalidade das mesmas;

* Movimentação das personagens em palco;

* Efeitos de luz e som.

  • As didascálias laterais, mais longas e apresentando minuciosas descrições. Têm um carácter mais subjectivo e limitam o papel do encenador. A sua função é:

* Complementar as falas das personagens;

* Levar o leitor a compreender melhor a história;

* Colocar o espectador como testemunha.


Tendo em conta a situação política dos anos 60 e tendo Sttau Monteiro consciência de que só muito dificilmente a sua peça seria representada em Portugal, as didascálias laterais funcionam quase como linhas de leitura que orientam a interpretação do público/leitor. Reveladora deste aspecto é, por exemplo, a didascália inicial, que aponta claramente para a interpretação a seguir.


Luz e Som:

Os momentos fulcrais da acção e os comportamentos mais relevantes das personagens são sublinhados pela incidência e/ou ausência de luz, que o clarão final da fogueira constitui o ponto fulcral.

Objectivos do recurso à luminotécnica:

  • Alteração do local da acção;

  • Mudança de cena;

  • Progressão no tempo;

  • Destacar personagens e acompanhar as suas movimentações no palco;

  • Delimitação de espaços;

  • Criação de ambientes de maior intimidade ou intensidade;

  • Criar efeito de distanciação entre a plateia e a cena;

  • Proporcionar ao espectador uma visibilidade selectiva.


O recurso às marcações de som está também ao serviço da intenção do autor, ainda que não sejam tão frequentes como as de luz. Importa salientar no 1º Acto o rufar dos tambores, som ameaçador e que obriga ao silêncio, e no 2º Acto o som dos sinos, que acompanhando o crescendo da aflição de Matilde, começam a ouvir-se ao longe e o seu ruído aumenta de intensidade.


Aspectos Simbólicos


O título Felizmente Há Luar!:

A frase que dá título à obra é proferida por duas personagens de “mundos” diferentes – por D. Miguel, símbolo do poder, e por Matilde, símbolo da resistência -, adquirindo sentidos diferentes consoante a perspectiva de cada uma das personagens.

  • D. Miguel

      • exprime o desejo de que a execução do alegado chefe da conspiração e de todos os seus seguidores seja uma demonstração da força da regência que não consentirá futuras rebeliões.


Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada (...) e o cheiro há-de-lhes ficar na memória durante muitos anos... Sempre que pensarem em discutir as nossas ordens lembrar-se-ão do cheiro... (pág. 153)

      • A execução terá lugar à noite, altura do dia que simbolicamente se liga ao mal, ao sofrimento e à morte. Sabemos que se prolongará pela noite, o que nos sugere a longa duração do suplício dos condenados: É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar... (pág. 153)

      • D. Miguel deseja que este castigo exemplar seja iluminado pelo luar. Como todas as pessoas o poderão ver será eficaz o efeito dissuasor da execução.

  • Matilde de Melo

  • A morte de Gomes Freire será a motivação necessária para o povo se revoltar contra os opressores.

Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio (...) Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!(...) Felizmente, felizmente há luar! (pg. 164)

  • O facto de Sttau Monteiro ter colocado esta expressão no final da peça não se deve ao acaso. Com isso pretende não só transmitir uma mensagem de esperança como também confere uma certa circularidade à obra. A morte de Gomes Freire não é um fim mas o início de uma nova era.


A Fogueira:

  • A fogueira não era destinada à execução de militares. No entanto, Gomes Freire, após ser enforcado, foi queimado. Contudo aquilo que inicialmente é aviltante acaba por assumir um carácter redentor.

  • O fogo associa-se ao sagrado, a algo purificador e regenerador. O seu poder de destruição é interpretado geralmente como meio para o renascimento numa esfera mais elevada. Desta forma, a morte na fogueira simboliza a purificação, a morte da “velha ordem” e o ponto de partida para um mundo novo e diferente e poderá sugerir que a destruição é necessária para que renasçam a força e a determinação capazes de conduzir o povo inerte e impotente à luta pela sua liberdade. Assim, ainda que o final da peça seja trágico, ela marca a glorificação de um momento de luta pela liberdade.

  • As palavras de Matilde: Aquela fogueira há-de incendiar toda a terra (pg. 161) têm um tom profético, uma vez que a execução dos alegados conspiradores teve uma profunda influência no surto de uma consciência liberal, servindo para estimular futuras rebeliões, visto que os opositores do regime se convenceram da tirania dos governantes e da impossibilidade de conseguir, por meios pacíficos, quaisquer modificações na situação. Estas rebeliões culminaram com a Revolução Liberal de 1820.


A Lua:

  • Representa a noite, a infelicidade, o mal, o sofrimento, a morte e o castigo.

  • Representa, por outro lado, a luz, a vida, a clarificação, a renovação, a transformação e o crescimento. Desta forma, a execução que se perpetua à luz do luar poderá remeter para a transformação, para a renovação de uma sociedade que se pretende justa e liberta da tirania dos poderosos.


O Verde:

  • Associa-se à renovação anual da Natureza. É a cor da vida, da regeneração, da esperança, da longevidade e da imortalidade.

  • No dia da execução Matilde veste uma saia verde, que o marido lhe oferecera em Paris, para esperar o companheiro após a morte (Foi para o receber que eu vesti a minha saia verde!). A cor da saia liga-se, então, à esperança de que o martírio do General não tenha sido em vão, à esperança do reencontro depois da morte e à crença de que aquele amor é imortal.


Moeda de cinco reis:

  • Simboliza o castigo/condenação mas também a esperança/libertação.

  • Assinala o reencontro de personagens em busca da História, por um lado, e é o penhor de honra que Matilde, emblematicamente, usará ao peito, como “uma medalha”.


Tambor:

  • Símbolo de coacção psicológica nas personagens do povo;

  • Marca a presença das forças opressivas/opressoras;

  • Remete para a destruição operada pela guerra;

  • Cria um ambiente de medo, ameaça e morte;

  • Símbolo do poder temporal.


Sinos:

  • Poder de purificação;

  • Evocação da morte;

  • Símbolo do poder espiritual;

  • Comunicação entre o céu e a terra.



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publicado por Ana Silva Martins às 20:39
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