Sábado, 22 de Abril de 2006
Felizmente Há Luar! (Luís de Sttau Monteiro) I
 


Teatro Épico/Brechtiano


  1. Génese do Teatro Brechtiano:

Etimológicamente épico provém de »épos», vocábulo grego que significa «a palavra», «o que se diz» ou «narração».

Foi após a Primeira Guerra Mundial que o termo épico começou a ser frequentemente utilizado na Alemanha pelos artistas que pretendiam dar maior relevo à narração.

No entanto, foi Bertold Brecht o grande teorizador do teatro épico. Segundo Brecht, o teatro tem por missão ajudar a transformar um mundo em mudança de acordo com relações fundamentais de produção (influência marxista).

A oposição entre teatro «tradicional» «clássico», «dramático» ou «aristotélico» e o «moderno», «épico» ou «brechtiano» dá-se, não quanto aos meios utilizados que o próprio Brecht reconhece serem semelhentes, mas em relação aos fins que pretendem atingir ( o brechtiano apela a tomadas de posição críticas e não emocionais).



  1. Características do Teatro Brechtiano:


Principal Objectivo: fazer com que o público reflicta e analise criticamente os dados que lhe são fornecidos.

Procura na História, no passado, um acontecimento que apresente pontos de contacto com o presente, e dramatiza-o de forma épica. Ao relatar determinados eventos pretende-se envolver o espectador que se torna uma testemunha activa. Ser activo implica tomar uma posição, julgar não apenas aquilo que está a ser representado, mas a asociedade em que o espectador se insere. Pelo desmontar minucioso do passado, convida-se o espectador a assumir uma postura crítica relativamente ao presente.


Técnica do Distanciamento Histórico – Propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica, possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. Embora nem sempre o processo teatral consiga evitar uma certa adesão sentimental entre personagens em palco e público, este tipo de teatro não pede ao espectador que se emocione com o actor, mas antes que se mantenha distante pela força do raciocínio. Estuda-se o comportamento humano em determinadas situações, levando o público a tomar consciência de que tudo pode e deve ser modificado, exigindo dele a tomada de decisões.

Técnicas que contribuem para o efeito de distanciamento:

  • substituição da representação pela narração;

  • utilização de cenários e montagens simples;

  • uso de máscaras, projecções, letreiros, etc.


O teatro épico tem incontestavelmente uma função social, que conduz o espectador a uma apreciação crítica não apenas do que está a ser representado mas também da sociedade em que se insere. O distanciamento causa uma «espécie de alienação», desviando, assim, o público do caso narrado. Logo, uma vez não identificado com o mundo cénico, vê de fora a sua própria situação social reflectida no palco.



  1. Elementos do Teatro Brechtiano em Felizmente Há Luar!:


Presença do elemento narrativo – o desenrolar dos acontecimentos históricos vai sendo contado através do discurso das personagens, na terceira pessoa, com uma objectividade bem determinada. Simultaneamente, a narração dos factos procura situar-nos no contexto espácio-temporal da acção.

O autor procura retirar quaisquer elementos que possam apelar ao sentimento, cortando os elos de ligação de empatia entre actores e espectadores, dado que o seu objectivo é que captem a mensagem pela razão. As próprias personagens, em algumas cenas, são posicionadas em palco pelo actor, deliberadamente para para cortar qualquer empatia que se possa gerar entre actores e público.

»Ao dizer isto, a personagem está quase de costas para os espectadores. Esta posição é deliberada...»


Todas as informações paralelas ao texto procuram orientar o espectador na acção, fazê-lo participar, torná-lo um interveniente consciente e não iludido por uma representação.

Os elementos cénicos participam também como discursos narrativos na representação dramática. Esta é uma técnica do teatro brechtiano para criar o efeito de distanciação.



Intencionalidade da Obra


Ao escrever esta peça Sttau Monteiro visa denunciar, não só as atrocidades cometidas durante o regime absolutista, mas também despertar os laitores/espectadores para as crueldades e injustiças que se cometiam em Portugal durante o período do fascismo.

O século XIX é uma metáfora para se falar do século XX, num tempo em que a censura proibia tudo o que fosse contra o poder instituído.

As críticas são a todos os níveis. Ele pretende desmascarar toda uma sociedade hipócrita que assenta na repressão e no subdesenvolvimento. Com ideologias arcaicas o país não pode evoluir.

O grande objectivo de Luís de Sttau Monteiro é didático, pretende levar a uma profunda reflexão da sociedade do seu tempo. Esta é uma forma de incitar à revolta e à subversão de um regime autoritário e repressivo que está a mutilar o país e a colocá-lo como retrógado aos olhos do mundo. Pensando conseguir despertar as consciências, o autor pretendia contribuir também para a transformação da sociedade em que se inseria.



Categorias do Texto Dramático


Tempo


Tempo da Diegese/história dramática: 1817

  • Crise generalizada a todos os níveis: político, militar, económico e ideológico.

  • Ausência do Rei no Brasil;

  • Junta governativa/falta de identidade nacional;

  • Permanência de oficiais ingleses nos postos do exército português;

  • Clima de recessão económica e de instabilidade social decorrente das invasões francesas (1807, 1809, 1810);

  • Crise económica devido à independência económica do Brasil;

  • Miséria e ruína agrícola, comercial e industrial;

  • Perseguições políticas constantes reprimindo a liberdade de expressão, a circulação de ideias e qualquer tentativa de implantação do liberalismo;

  • Rodeados de delatores que se vendiam a baixo preço, os governadores do reino procuravam nomes de conspiradores. Não interessava quem era acusado e tão pouco importava a inocência ou a culpa de cada um. A necessidade de manter a ordem, de evitar a rebelião era superior à justiça dos actos.

  • Grande poder e corrupção da Igreja, ideia da origem divina dos reis;

  • Gérmenes do movimento liberal.


Tempo da Escrita: anos 60 do séc.XX:

  • início da guerra colonial em Angola (1961);

  • múltiplos afloramentos de contestação interna (greves, movimentos estudantis);

  • pequenos «golpes palacianos» prenunciadores de clivagens internas, no seio do próprio poder;

  • os “bufos”, apesar de disfarçados, colhiam informações e denunciavam; a censura e severas medidas de repressão e tortura, condenando-se até sem provas.

  • Crescente aparecimento de movimentos de opinião organizados, a par da oposição política que, embora reprimida, fazia sentir a sua voz, nomeadamente na existência de eleições livres e democráticas;


Tempo da Acção:

  • Grande concentração do tempo.

  • Acto I – a acção decorre em dois dias.

  • Acto II – a acção decorre em cinco meses.



Espaço


A mutação de espaço físico é sugerida essencialmente pelos efeitos de luz. O espaço cénico é pobre, reduz-se a alguns objectos que têm a função de ilustrar o espaço social. Esta simplicidade parece ser intencional e mais importante que os cenários é a intensidade do drama que é realçada por esta economia de meios.

Acto I :

  • ruas de Lisboa (onde se encontram os populares)

  • local onde D.Miguel Forjaz recebe Vicente

  • palácio dos governadores do Reino, no Rossio

  • Referências a casa de Gomes Freire lá para os lados do Rato e espaços frequentados pelos revolucionários conspiradores – café no Cais do Sodré; Botequim do Marrare; loja maçónica na rua de São Bento.

Acto II:

  • ruas de Lisboa;

  • casa de Matilde de Melo;

  • à porta da casa de D. Miguel Forjaz;

  • Local onde Matilde fala com o Principal Sousa;

  • Alto da serra onde Matilde e Sousa Falcão observam as fogueiras que queimam os revolucionários;

  • Referências a masmorra de S. Julião da Barra, Campo de Santana para onde são levados os presos, aldeia onde Matilde cresceu, Paris, campos da Europa onde o General combateu.



Acção e Estrutura Externa e Interna


Estrutura Externa

  • Estrutura dual: «Peça em dois actos», a que correspondem momentos diferentes da evolução da diegese dramática.

  • No Acto I é feita a apresentação da situação , mostrando-se o modo maquiavélico como o poder funciona, não olhando a meios para atingir os seus objectivos, enquanto que o Acto II conduz o espectador ao campo do antipoder e da resistência.

  • Não apresenta qualquer divisão em cenas. Estas são sugeridas pela entrada e saída de personagens e pela luz.

Estrutura Interna

  • Não se trata de uma obra que respeite a forma clássica nem obedeça à regra das três unidades (de lugar, de tempo e de acção). No entanto o esquema clássico está implícito (exposição, conflito, desenlace).

  • A apresentação dos acontecimentos processa-se pela ordem natural e linear em que ocorrem, facilitando assim a sua compreensão.


Acção

A acção desenrola-se a partir da figura histórica do general Gomes Freire que foi acusado de conspirador e executado na prisão de São Julião da Barra. A figura do General está sempre presente, do princípio ao fim, embora nunca apareça.

Breve resumo da acção

Um grupo de populares manifesta o seu descontentamento, nas ruas de Lisboa, face à miséria em que vive.

Um Antigo Soldado, que se encontra junto do grupo, refere a figura do General Gomes Freire de Andrade como homem generoso e amigo do povo. Vicente, embora seja um elemento do povo, discorda das palavras daquele e tece comentários desfavoráveis acerca do general.

A chegada da polícia vem pôr termo a esta discussão, provocando a dispersão dos presentes.

Vicente é levado pelos dois polícias à presença de D. Miguel Forjaz, um dos três governadores do reino. Vicente, tornando-se traidor da sua classe, aceita desempenhar o papel de delator e denunciar os nomes daqueles que conspiram contra o reino.

Os governadores, D. Miguel, Principal Sousa e Beresford, tentam a todo o custo encontrar o nome de um responsável pela conspiração, responsabilidade que vai recair sobre Gomes Freire. (Fim do Primeiro Acto)

O general, juntamente com outros conspiradores, é executado na praça pública, em S. Julião da Barra.

A esposa do general, Matilde, e o seu grande amigo, Sousa Falcão, tentam por todos os meios ao seu alcance salvar Gomes Freire, pedindo ajuda a Beresford, aos populares, a D. Miguel e, por fim, a Principal Sousa, mas a morte de Gomes Freire de Andrade era um mal necessário às razões de estado.




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publicado por Ana Silva Martins às 20:34
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