Sábado, 22 de Abril de 2006
O Papel das ETN na Crescente Mundialização das Trocas de Bens, Capitais e Informação

 

A Intensificação das trocas comerciais à escala mundial e os principais fluxos comerciais

 

 Razões que explicam a aceleração significativa das trocas (pós-II Guerra):

    • Acordos do GATT – General Agreement on Tarifs and Trade – que permitiram a descida significativa das taxas alfandegárias;

    • Movimentos de integração económica europeus (CEE, UE, EFTA) e extra-europeus (NAFTA, Mercosul)

    • Dispersão espacial da produção - deslocalização e relocalização. - Facilitada pelos progressos dos meios de transporte e pelas estratégias das empresas transnacionais (ETN)

    • Explosão demográfica e melhoria do nível de vida

    • Grandes assimetrias na distribuição dos recursos

Porém, a intensificação dos fluxos de mercadorias não se repercutiu igualmente em todo o mundo (3/4 das exportações realizam-se entre os países mais desenvolvidos e os membros da UE).

    • Os desiquilíbrios no comércio mundial são cada vez mais acentuados verificando-se um claro domínio da Tríade e das ETN (as mais beneficiadas com este crescimento) originárias do G7 e de alguns NPI.

    • Distribuição das exportações mundiais: UE – 40%, EUA – 15%, JPN – 8%.

    • Aumento do comércio intra-blocos em relação ao comércio inter-blocos. 

 O Comércio mundial é um agente impulsionador da mundialização das economias.

O comércio de mercadorias têm-se caracterizado:

    • por uma diminuição do peso dos produtos do sector primário nas exportações mundiais devido à deterioração dos termos de troca, à auto-suficiência alimentar de países muito populosos e à diminuição da procura mundial destes produtos.

    • Por um aumento do peso dos produtos manufacturados nas exportações mundiais devido à intensificação dos processos de industrialização à escala planetária e à divisão internacional dos processos produtivos.



A Liberalização das trocas de serviços


 As trocas de serviços têm-se caracterizado:

    • por um aumento da população activa a trabalhar neste sector;

    • pela terciarização da indústria face ao recurso crescente a serviços intermédios e finais - interpenetração da indústria e dos serviços (terciário recorre a indústria e secundário recorre a serviços);

    • por um aumento da importância dos serviços nas trocas internacionais devido à liberalização das trocas e à crescente privatização de sectores na posse do Estado.

 A liberalização das trocas de serviços tem possibilitado que os fluxos se multipliquem a nível mundial:


    • Surgimento de grandes ETN vocacionadas para dar resposta às novas necessidades decorrentes do aumento das trocas de mercadorias.

    • Intensificação dos fluxos de serviços entre países (turismo, cooperação técnica, cultura).


Intensificação dos movimentos de capitais


 A contabilização dos fluxos de capitais é dificultada pela natureza muito diversa dos mesmos – transferências privadas e públicas, investimentos directos, investimentos de carteira (acções, títulos, etc) ou operações de crédito.

 As ETN realizam uma parte significativa das transferências de capital. Dado que as mesmas se realizam no interior da empresa entre as filiais e a empresa-mãe, a dificuldade de contabilização é ainda maior.

 Os fluxos de capitais constituem um factor essencial ao crescimento económico.


 Causas da intensificação dos movimentos de capitais:

  • modernização dos mercados financeiros,

  • crescente liberalização das economias

  • desenvolvimento das tecnologias de informação.


 Os movimentos de capitais têm-se caracterizado:

  • Por um aumento dos fluxos de capitais destinados à ajuda ao desenvolvimento, ao financiamento das actividades comerciais e ao investimento (IDE), tendo o maior volume origem nos países da tríade e como destino principal os países industrializados;

Através do IDE, as ETN financiam o funcionamento das empresas filiais nos países anfitriões, consolidando o processo de penetração nos mercados externos.

  • Por um aumento dos fluxos entre países detentores de excedentes financeiros e os Estados com elevadas dívidas externas (esses fluxos encontram-se por vezes associados ao comércio de produtos ilícitos e ao narcotráfico);

  • Por um aumento dos fluxos especulativos à procura da maior rendibilidade impulsionados pela modernização dos mercados financeiros, por uma crescente liberalização das economias, apoiados nas tecnologias da informação e na instabilidade das taxas de câmbio.

    • As principais praças financeiras internacionais (Bolsas de Valores) constituem as «placas giratórias» independentes de apoio à circulação mundial do dinheiro, funcionando 24 horas por dia.

    • A mobilidade do capital é tal que originou o desenvolvimento de movimentos especulativos que podem perturbar o funcionamento das economias nacionais.

  • Pela diminuição da soberania dos Estados face à turbulência provocada pelos fluxos de capitais especulativos e às estratégias das ETN.



Intensificação dos Fluxos de Informação


Os fluxos de informação têm-se caracterizado por:

    • uma autêntica revolução tecnológica que proporciona um acesso mais fácil à informação (troca de informação em tempo real).

    • Um aumento da importância da informação como recurso das empresas e das organizações no mercado global e, cujo domínio se revela fundamental.

    • A informação é, no mercado global, um importante recurso das empresas e das organizações em geral.

O seu domínio é fundamental para a definição das estratégias das ETN (que montam mesmo as suas próprias redes de informação) e para promover competitividade, e tem servido para os países mais desenvolvidos manterem o seu domínio económico e cultural.

  • Uma concentração evidente das tecnologias de comunicação nos países desenvolvidos.

    • Os países pobres encontram-se marginalizados no acesso à informação. A sociedade, ao organizar-se em rede, está a criar dois sistemas paralelos de comunicação.

    • A predominância dos EUA no domínio da comunicação e da informação é esmagadora (76% dos bancos de dados são norte-americanos). Este domínio apoia-se:

    • no poderio da sua indústria informática

    • no poderio dos seus bancos de dados que armazenam grande quantidade de informação científica e comercial

    • nos grandes grupos ligados à imprensa e aos meios multimédia

    • na indústria cinematográfica

    • na indústria de comunicação.




A Acção das ETN

Empresa Transnacional (ETN): Toda e qualquer entidade que tenha por vocação produzir ou comercializar bens ou serviços, e que prossegue esse objectivo através da instalação de diversos estabelecimentos no território de vários estados, por entre os quais reparte os recursos disponíveis de forma a que possam executar actividades concertadas à escala global.

O termo multinacionais não é correcto pois estas empresas não têm capital de várias nacionalidades. Em contrapartida, o termo transnacionais retrata a autonomia destas firmas relativamente ao seu país de origem e o facto de elas definirem estratégias, considerando o planeta como um todo único.

As ETN são actualmente os motores da mundialização da economia. Associadas ao processo de internacionalização da actividade produtiva, têm vindo a implantar-se em vários países a partir dos três pólos da tríade.

Principal característica de uma ETN: realizar investimentos directos fora do território nacional onde está sediada, controlando total ou parcialmente a empresa em que o investimento se efectua.

Objectivo: minimizar os custos de produção e penetrar no mercado mundial.

Na sua estratégia de controlo dos mercados, utilizam tácticas diferentes consoante a situação de cada país ( e as suas vantagens comparativas).


  • Desenvolvem estratégias de deslocalização e relocalização das actividades:

  • Implantam segmentos de um processo produtivo em diferentes territórios nacionais, à procura das condições óptimas de produção e dos mercados mais atractivos.

  • Subcontratam a empresas estrangeiras componentes daquele processo, reservando para si os segmentos da cadeia produtiva ou os artigos de maior valor acrescentado.

  • Para atingir a máxima rendibilidade criam sucursais nos países ou regiões onde obtêm vantagens comparativas (recursos naturais, salários mais baixos, paraísos fiscais, ausência de liberdades sindicais, legislação laboral permissiva, benefícios fiscais, facilidades no repatriamento dos lucros, subsídios da UE e outros benefícios concedidos pelas autoridades locais).

  • Consequências das deslocalizações para os países onde se instalam:

Vantagens:

  • Criação de empregos

  • Transferência de tecnologia

  • Entrada de divisas

  • Criação de pólos de crescimento

  • Crescimento das exportações

Inconvenientes:

  • Interesses diferentes dos dos governoc locais

  • Falência de algumas empresas locais

  • Aumento das assimetrias regionais

  • Êxodo rural

  • Transferência dos lucros para o país onde se encontra a sede da ETN

  • Maior dependência face ao exterior.

O poder das ETN sobrepõe-se ao dos Estados que vão perdendo progressivamente o controlo sobre a acção destas empresas.

  • Os benefícios exigidos pelos governos locais não vão além de compromissos de reinvestimento no país de uma parte dos lucros obtidos, o que nem sempre é cumprido por motivos de «força maior».

  • As suas estratégias passam por cima ou ao lado das políticas económicas dos Estados nacionais.

  • Algumas empresas apresentam volumes de negócios superiores ao PNB dos países onde estão localizadas.

  • O seu poder económico e elevado número facilita a ingerência, com frequência, nos assuntos internos dos países. As ETN influenciam, por vezes, não só o desenvolvimento económico de um país ou região, como também a política de investimentos dos Estados, a sua capacidade produtiva e de mobilização de mão-de-obra.

  • Quando os Estados exigem alguns benefícios ou, em situação de conflito de interesses, nacionalizam as suas filiais, as ETN podem participar activamente no apoio ao derrube de governos menos favoráveis (exemplo: apoio ao golpe militar do general Pinochet e ao assassínio do Presidente Salvador Allende, no Chile).

O fenómeno da transnacionalização, que se relaciona, sobretudo, com a crescente importância das ETN no funcionamento da economia mundial, põe em causa o Estado-Nação no seu papel de agente económico básico e fundamental das relações económicas internacionais.

O comércio internacional baseado na transacção entre empresas nacionais, sediadas num território nacional em que o Estado é soberano em questões fundamentais deu lugar a um sistema de comércio caracterizado pela integração entre economias nacionais e pelo papel cada vez mais influente das ETN. Só o comércio interno entre filiais e empresa-mãe representa um terço das trocas comerciais internacionais.

Com o objectivo de continuar a penetração em todos os mercados e impedir a expansão das empresas concorrentes, as ETN multiplicam as fusões, as alianças estratégicas, os acordos de cooperação com outras empresas (joint ventures) e as absorções das concorrentes, favorecendo as economias de escala.

As gigantescas empresas que resultam dos processos de fusão e de alianças, levam a cabo reestruturações das suas actividades, responsáveis pela supressão de inúmeros postos de trabalho. Ao mesmo tempo, os mercados financeiros reagem positivamente garantindo a valorização das acções da nova empresa e a obtenção de mais-valias.




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publicado por Ana Silva Martins às 19:26
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