Sábado, 22 de Abril de 2006
O Papel da Socialização na Reprodução Social
 


Socialização e Estratificação Social


 A socialização, como processo de transmissão da cultura do grupo a que o indivíduo se encontra ligado, inclui, naturalmente, a aprendizagem do modelo de organização social vigente.

O processo de socialização contribui para que os indivíduos se adequem e acomodem às normas do grupo, o que passa pelo respeito das regras, dos papéis e estatutos socialmente reconhecidos bem como pelo sistema de estratificação social vigente.

Desempenha, assim, um importante papel no processo de aceitação de uma sociedade estratificada.

Estratificação Social e Hierarquia

 A complexificação social, exigindo novas funções sociais, tem sido acompanhada da atribuição de funções diferentes aos indivíduos, com a atribuição correspondente de deveres e privilégios.


Hierarquização de funções e de estatutos, de acordo com critérios e valores estabelecidos e aceites na sociedade e que os indivíduos aprendem durante o respectivo processo de socialização.

 Qualquer hierarquia supõe uma referência a valores em relação aos quais podemos situar os diversos estatutos numa escala de apreciação.

            Estratificação social: Classificação diferencial dos indivíduos que compõem um sistema social dado, e a sua qualificação de superiores ou inferiores uns em relação aos outros, segundo valores importantes para a sociedade.

  • Traduz-se nas oportunidades que o indivíduo pode ter, segundo a sua situação social, de receber em maior ou menor quantidade as coisas que, na sociedade, têm valor ou de participar mais ou menos nos valores essenciais.

  • Uma vez que cada conjunto de indivíduos, que gozam de igual tipo de oportunidades de acesso aos valores sociais, constitui um estrato social, pode afirmar-se que as sociedades são estratificadas.

  • A estratificação social, exigindo então um sistema de hierarquias, concretiza uma forma desigual de distribuição dos direitos e privilégios, dos deveres e responsabilidades, do poder e influência... entre os membros de uma sociedade.

 Hierarquizar estatutos ou posições sociais implica que os indivíduos recebam de forma desigual as coisas que têm valor social e que participem diferentemente nos valores essenciais.


Critérios de Estratificação Social

 Uma vez que a estratificação social pressupõe determinada hierarquia, esta exige a fixação de critérios que a expliquem e lhe dêem razão de ser.

 A multiplicidade e a diferente natureza dos estratos com que nos defrontamos em qualquer sociedade e o facto de entre eles se estabelecerem inúmeras relações, alerta-nos para a diversidade dos critérios de estratificação utilizados e para a falta de limites rígidos e precisos.

 A estratificação surge como um fenómeno universal, mas dificilmente enquadrável numa tipologia rígida, dado que são inúmeros os critérios possíveis e a variação da sua importância no tempo e no espaço.

 Tipos de estratificação:

  • económica - baseada na situação económica e financeira das famílias (riqueza, rendimento)

  • política – baseada na importância política de cada indivíduo ou grupo.

  • socioprofissional – resulta da diferente importância atribuída a cada profissão (prestígio, grau de educação). É determinante nas sociedades industrializadas e urbanas.

  • outros – raça, religião, orientação sexual...

          Todos eles representam uma repartição desigual das vantagens que podem ser adquiridas na sociedade.

 A estratificação é então um problema complexo, dado que cada sociedade tem os seus critérios de estratificação próprios, mas que podem variar de grupo para grupo ou não se encontrar perfeitamente definidos.

 O problema da estratificação torna-se ainda mais complexo visto que em cada momento os mesmos indivíduos ou grupos podem pertencer a estratos diferentes, consoante os critérios adoptados, assumindo assim, posições hierárquicas diversas, muitas vezes resultantes das opiniões subjectivas do próprio indivíduo ou grupo.

 Cada sistema de estratificação condiciona a mobilidade social.



Classe Social


Noção de classe social, segundo Marx

Os indivíduos concorrem entre si, de forma organizada ou difusa, no sentido de melhorarem as suas posições na sociedade. Esta luta apresenta um duplo carácter: para uns serve para conquistar posições; para outros é necessária para manter e consolidar as posições já adquiridas.

 De acordo com Marx e Engels «a história de toda a sociedade até hoje é a história da luta de classes».

              Classe Social divisão efectiva da sociedade, e não meramente metodológica, que exige um mínimo de consciência que permita conduzir a luta na sociedade global com o objectivo de fazer prevalecer os interesses do grupo e de liderar ou participar no poder.


  • Uma classe só existe para si em oposição a outras.

  • É combatendo, lutando contra as restantes classes, que a classe em si se transforma em agente histórico.

  • É fundamental que a classe antagónica tenha uma consciência científica e objectiva e não apenas ideológica da sua posição em relação aos outros.

  • Existem apenas duas classes sociais que se definem em função de um critério real: a propriedade dos meios de produção. Este critério é inerente ao acto de produzir, indispensável à sobrevivência dos indivíduos, e, portanto, é um critério objectivo.

  • Nos últimos anos tem-se vindo a sentir a necessidade de alargar o conceito de classe social, pois o desenvolvimento económico, a democratização da educação e do processo político têm vindo a contribuir para atenuar as desigualdades sociais e para que os indivíduos possam exprimir livremente as suas opiniões através da luta política e do acto eleitoral.

A luta de classes é um fenómeno que, de acordo com alguns ideólogos, tem vindo a ser substituído por formas diversas de concertação social, ao mesmo tempo que se caminharia para uma sociedade de classes médias.


 Associar classe social a estrato é abusivo, já que o conceito de classe social só tem valor como parte da teoria de Marx e Engels, entre outros.



A Socialização como Processo de Reprodução Social

A Socialização como Controlo Social

 É através da interiorização gradual das normas e valores do grupo (socialização) que o indivíduo é aceite como membro, com iguais direitos e deveres.

 Um eficaz processo de socialização é um factor indispensável à aceitação total das normas e valores do grupo, contribuindo para a sua reprodução.

 A socialização adquire também o estatuto de controlo social, na medida em que ela impede ou dificulta que os indivíduos actuem de forma diferente da esperada, por tal actuação ser «anormal».


Mesmo que inconscientemente, os indivíduos autoregulam os seus comportamentos, agindo de acordo com os quadros sociais em que foram socializados, a fim de não serem considerados como marginais e de lhes não serem atribuídos todos os estigmas sociais que a marginalidade confere.

 Porque impede o indivíduo de se afastar da norma, isto é, de ter comportamentos desviantes, a socialização contribui para a reprodução social, assumindo a natureza de uma verdadeira forma de controlo social.


O Conflito entre os Agentes de Socialização

 O contributo do processo de socialização para a reprodução social não é uniforme nem linear, variando de sociedade para sociedade ou, na mesma sociedade, ao longo do tempo.

 O controlo social exercido pela socialização é mais eficaz numa sociedade fechada tradicional do que numa sociedade aberta.

Uma vez que a abertura e mobilidade são características típicas das sociedades modernas, é natural que ocorram nelas, com muita frequência, processos de socialização antecipada e de requalificação e reposicionamento social.

 Entre os grupos cujo estatuto social diminui e os cujo estatuto aumenta, estabelecem-se relações de algum modo conflituais, que se repercutem nos indivíduos em geral, sujeitos permanentes de processos de socialização diversificados.

 Em cada momento e com mais acuidade nas sociedades abertas, a acção dos agentes de socialização pode ser contraditória e conflitual, contribuindo para acelerar ou retardar o processo de mudança.


Grau de Aceitação do Sistema de Estratificação Social

 Qualquer que seja o sistema de estratificação social, dificilmente é aceite de forma plena, dado que é imposto e representa uma forma de distribuição desigual de oportunidades e de privilégios.

 Os inúmeros mecanismos de controlo social e o processo de socialização contribuem, de forma determinante, para a aceitação do sistema, sendo natural que a aceitação do sistema de estratificação assuma diversos graus.

 Quanto mais consentido for o sistema de estratificação, isto é, quanto maior for o seu grau de aceitação pela colectividade, maior será a sua estabilidade.

  • Se a estratificação é bem aceite (sociedades mais tradicionais), a competição entre os estratos quase não existe, pelo que as tensões entre eles, pouco vigorosas, não implicam grande alteração da ordem estabelecida.

              O sistema de estratificação social vai-se alterando, gradualmente, em sintonia com as mutações ocorridas na própria sociedade.

  • O reconhecimento dos diferentes tipos de vantagens atribuídas aos estratos pode levar à constituição, no seu seio, de grupos mais conscientes da sua situação de desvantagem que, reclamando-se o direito de exprimir os interesses do estrato, vão afectar todo o sistema.

A rivalidade entre os estratos torna-se real, provocando sempre desiquilíbrios no tecido social, podendo assumir, por vezes, formas mais violentas. É o tempo de mudança, das alterações de costumes e de valores.

A aceitação do sistema de estratificação social depende, portanto, do processo de socialização.

Esta relação não é linear nem inalterável: o indivíduo, mesmo sendo um produto da cultura do grupo em que está inserido, poderá sempre reagir contra os seus aspectos mais críticos assumindo uma atitude desviante.

O indivíduo, não aceitando as desigualdades sociais decorrentes do sistema de estratificação social vigente poderá, por via mais violenta (luta política ou armada) ou por via mais pacífica (possibilidades de mobilidade social) lutar contra a situação.


 

Mobilidade Social e Socialização por Antecipação

A mobilidade social, ao acarretar a mudança de estrato, acarreta, também, novos papéis e estatutos sociais.

 A mobilidade social não acontece de forma igual nas diversas sociedades, antes varia de acordo com os valores sociais que as caracterizam e com os próprios critérios de estratificação. É um processo tanto mais intenso quanto mais aberta for a sociedade.

  • Nas sociedades arcaicas a mobilidade social é difícil ou virtualmente impossível. Dificilmente o indivíduo se libertará dos estratos que, à partida, lhe foram atribuídos.

  •  Nas sociedades modernas, a mobilidade social é um fenómeno característico, uma vez que os novos critérios de estratificação não se encontram, ainda, rigidamente implantados. A mobilidade social está sempre presente nas atitudes e realização de um indivíduo ou grupo.

- A mobilidade social é viável pois os estratos são abertos, existindo entre eles canais de acesso, nomeadamente a instrução e, sendo permitida a competição. A ascensão social depende mais do mérito e talento individuais do que da ascendência social...

- Na base desta mobilidade está, certamente, o desenvolvimento económico e tecnológico.

- A mobilidade também pode acontecer no sentido descendente. Não sendo uma situação muito vulgar, pode acontecer que o indivíduo não consiga manter a posição em que nasceu, por não aproveitar as oportunidades oferecidas à partida pelos pais.

- Para que o indivíduo seja realmente aceite pelos membros do estrato a que ele pretende ascender, é preciso que o indivíduo em mobilidade adquira os elementos culturais do novo estrato, de forma a agir de acordo com os padrões de comportamento respectivos – Socialização por antecipação.

- A desadequação comportamental do indivíduo aos padrões de comportamento do estrato a que ascendeu leva a que seja olhado sempre como um estranho, um recém-chegado que, de facto, nunca chega a ser considerado como um igual.

-  Afinal, num processo de mobilidade social, os indivíduos são forçados a socializarem-se de acordo com os valores e modelos do grupo de referência a que querem vir a pertencer e que lhes serve, portanto, como referencial de comportamentos.



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publicado por Ana Silva Martins às 18:19
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